CONTEÚDO NÃO-RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
review 0ldbutg8ld #1111
obs: nós não seguimos o acordo ortográfico lusitano de 2009!
Por Rafael “Cila” Aguiar
FM-7 & PC-88

Lolita Syndrome


| F I C H A T É C N I C A | ||
| Developer(s) Enix | ||
| Publisher(s) Enix | ||
| Estilo(s) Eroge & Gore Miscelânea > Gambling / Puzzle | ||
| DATA(S) E REGIÃO(ÕES) DE LANÇAMENTO | ||
| 10/83 (JP) em ambas as plataformas. | ||
Também incluso na(s) compilação(ões):
| N.A. |
Quem jogar este também poderá gostar de:
(Em vermelho, os jogos que já revisamos – se não estiver linkado, ainda não foi “upado” no novo blog.)
JESUS: Kyoufu no Bio Monster (Enix, 1987; Enix 1987; King Records, 1989; Enix, 1987, visual novel)(FM7/MSX/NES/X1)
Joshidaisei Private Stripper (Falcom, 1984; 1983; 1984, puzzle/soft eroge) (FM7/PC88/PC98)
Kagirinaki Tatakai (Enix, 1983, shoot ‘em up) (X1)
| NOTA(S) |
(Cada escore é uma média dos principais portais de games na web e revistas antigas quando for o caso, e também engloba a opinião dos gamers visitantes, além da crítica especializada; não necessariamente reflete meu ponto de vista sobre o jogo.)
4.1
| ESTE JOGO É PRA… | |
| (X) passar longe | (X) dar uma jogadinha de leve |
| ( ) dar uma boa jogada | ( ) jogar freneticamente |
| ( ) chamar a rua toda pra jogar | (XXX) uma incógnita |
| (X) tipos específicos de jogador. Quais? | |
- Já está demasiado na cara!
- Subsidiariamente, não podemos negar que é um jogo de apostas (nada muito diferente do filme Saw, tirando a idade das vítimas), independentemente do envoltório, mas não é dos melhores, nem mesmo comparado a jogos asininos patrocinados por cassinos e ricaços de Las Vegas, como Caesar’s Palace…
| FAIXA DE VIDA ÚTIL ESTIMADA | De 1h a 3h (com paciência de Jó). |
Só para “jerking off” e dar um break em seus problemas cotidianos… ou possui algum valor intrínseco?
(*) As imagens são para a versão PC-88.
As primeiras palavras que pronunciamos – depois de permanecermos pasmados e boquiabertos, inanes, por de 5 a 10 segundos, logo que conhecemos Lolita Syndrome e sua natureza corrupta – são: “o passado negro da Enix…”. Indeed, meu caro Watson! A Enix Corporation, antes de ser a grande produtora de Dragon Quest e outras franquias de RPG, engatinhava no mercado doméstico com joguinhos sujos, o que, por aqui, após descobrirmos tudo sobre esses anos via internet, recebe o batismo de hentai eletrônico e interativo – e uma subvertente considerada doentia, senão criminosa, por nós (regulação sobre personagens fictícios menores de idade é um assunto complexo que merece um artigo dedicado neste site, senão um livro…). Deixando à parte a questão do PASSADO NEGRO (que também merece um artigo, cogito isso a sério!),¹ vejamos os méritos e deméritos do produto em questão, LS.
¹ À guisa de prólogo e contexto no mundo real, podemos dizer que esse tipo de obra só foi possível porque os jogos de computador na primeira metade dos anos 80, no Japão, eram um mercado muito pequeno, e absolutamente desregulamentado. Isso permitiu à Enix e outras produtoras como Falcom (outra que se redimiria com louvor) e PSK capitalizarem, ainda que pouco, sem punição ou censura. O computador FM-7 foi um dos maiores receptáculos desse naipe de “entretenimento”. Sem foco nos games per se, em alguns dias será publicada, pertencendo à seção ANIME & MANGÁ, uma crítica histórica do fenômeno lolicon, também chamado de lolita phenomenon ou lolita boom, então peço que fiquem de olho. Por mais que se torça o nariz, essa faceta é essencial para entender a cultura japonesa dos últimos 40 ou 50 anos. A red flag está garantida, mas estamos aqui para dar a cara a tapa!
Muito bem, gostaria de adentrar nos aspectos técnicos, descontextualizando toda a polêmica, mas segundos após iniciar a sessão de jogo, na intro, uma criança, aparentemente nem chegada aos 10, aparece correndo e segurando uma motosserra com o intuito de assassinar outra loli nua, salvo que veste um daqueles gorros de pijama… Err… além do tabuísmo sexual, o jogo envolve gore, e gore gratuito, feito para escandalizar – e, veremos em tempo, quase nada mais… Para quem é familiarizado com os porn games ocidentais dos anos 90, prolíficos em sistemas como o 3DO, o epíteto deste jogo que circula na web fará sentido: “Enix Goes Wild”, uma referência ao péssimo e esculhambado jogo com filmagens live action SuperModels Go Wild (e se você adivinhou o que o negrito em vermelho significa, sendo freqüentador deste site…: eu resenhei SMGW no meu passado; falta fazer o upload no atual blog – não é uma experiência que me orgulha; digo, adoro escrever, mas o que tive de passar para escrever a resenha é o que de fato me envergonha…).
Voltando ao assunto principal, como eu iniciei o tópico da narrativa, me sinto obrigado a continuá-lo: a ação acontece na Maison Lolita (Rorita na transliteração nipo), uma espécie de Playboy Mansion para pedos?!?… A mansão é habitada por muitas dessas “ninfas”, todas estranhamente fãs de flertar com a própria morte (prática BSDM levada ao extremo).

Sem falsa depreciação – e uma vez que já ultrapassamos o relato da “estória”, pois era só aquilo mesmo (um pretexto para a ambientação) –, os gráficos deste jogo parecem ter sido programados usando o Paint Brush. Talvez isso facilite a aceitação por parte dos mais restritivos em questões morais – talvez não! Mal reconhecer o que se vê pode vir em detrimento do efeito pornográfico, e em termos de voz, também não temos algo que excite, felizmente, não temos nada, para ser sinceros (a mídia era o disquete)… Sobre as animações, que não são feitas no Brush, editor estático, é difícil imaginar que não sejam fabricadas pelo MS Basic: exatamente outro app velho e hoje inútil da rainha dos computadores ocidentais (Microsoft) específico para animações, montagens de vídeos ou sucessões de desenhos em quadros – os videomaers realmente evoluíram catapimbas nos últimos 40 anos!
Comentando as “protagonistas”, outra coisa que ressalva as péssimas conseqüências da idéia que o jogo quer inculcar no usuário, a começar pelo TÍTULO, é que sinceramente as “crianças” não parecem crianças, em verdade, mas mulheres em formato… não super-deformed (tampinhas com cabeção), mas, eu diria, de hobbit. Mulheres hobbitizadas, anãs robustas, sem barba, para quem não conhece Tolkien. Explosões e sangue – é um jogo +18, afinal – são profusas, mas sua representação gráfica chega a ser risível, a ponto de pensarmos que, não fossem os innuendos libidinosos, o produto seria seguro para a família. Jogos mais tardios como Fatal Relations podiam dar asas a sua depravação numa qualidade gráfica muito mais avançada (e que depravação, para quem tiver coragem de clicar no hiper-link…).

Se é que há um sistema de jogo, ele pode ser descrito exaustivamente no presente parágrafo: a mansão Rorita está dividida em 5 cômodos. Cada um representa um minigame diferente, de modo que o jogo não é tão fácil de classificar em subgênero (o gênero primordial é obviamente eroge, safadeza). Quatro minigames, não 5, mea culpa. Péssimos 4 minigames… O quinto não passa de uma art gallery, peeping eye de voyeurs de sprites primitivos… A seguir uma descrição de 3 dos 4 minijogos:

Sala da roda dentada elétrica. Essa tinha sido foreshadowed na seqüência introdutória. Uma garota sadomasoquista mandou ser amarrada – ou se amarrou, mas sem poder escapar – numa mesa, debaixo de um dispositivo… mortal. Uma serra giratória faz seu percurso, perigosamente se aproximando do corpo indefeso a cada nova volta das lâminas cortantes em seu próprio eixo! Existem 10 chaves para desatar as pernas e os braços da vítima auto-imolada. Só 1 pode salvá-la do pior dos destinos. Você tem direito a 5 palpites. É esse o “jogo”: uma espécie de cassino pervertido, chato, monótono. A morte da garota é um espetáculo à parte: ela explode em jatos de sangue, sem deixar membros ou resquícios! Algo me diz que anatomicamente não seria parecido na vida real… Se você vencer (50% de probabilidade), em vez do gore seu prêmio será o ero: ela fará um strip-tease para sua basbaque contemplação, e dirá alguma coisa em japonês que não nos ocupamos de traduzir, pois não deve ser de relevo para nossas vidas.

Sala dos “dardos” perversos. Dessa vez uma garota arranjou para ser amarrada tangendo a parede, para simular uma daquelas atrações circenses da maçã sobre a cabeça, ou como alvo gigante e humano num jogo de dardos insano. Spoiler: não tem nenhuma maçã na cabeça, e a pontaria do atirador é horrível! Pois é, em vez de usar dardos, ela quer que você jogue com facas. Se você atingir locais na parede próximos o suficiente da lolita sem perfurar sua carne em pontos vitais (clean hits), o que deve fazê-la ter orgasmos, pelo visto, você já adivinhou o prêmio… Como vislumbrado no péssima artwor mais acima, nunca é uma nude depiction total, apenas da cintura para cima, fora que a lei japonesa permitia – mesmo em desenho – a figuração de pêlos pubianos, o que talvez explique a ambigüidade das personagens (estão mesmo na infância ou pré-puberdade ou se trata de mulheres no sentido pleno da palavra, mas que se depilam?). Basbaque aquele que aceita tal monstruosidade como recompensa de alguma ação! Sua “punição”, por outro lado (ou pelo mesmo lado…) também é previsível… e tem algo a ver com suas facas, mas, na forma exagerada como novamente se manifesta (considerando a descrição da primeira sala), podemos imaginar que havia pólvora instilada nas facas e gasolina besuntada no alvo ou no corpo da ninfeta dementada, ou o quarto estava completamente provido de C4 e um idiota acendeu um cigarro… Boom total, aniquilação corporal de dentro para fora… E atirar nos locais certos (para poupar a vida da BDSM-practitioner) não depende de qualquer habilidade com o joystick (emulando) ou o teclado – em verdade, é outro jogo de sorte, porque números num menu representam suas alternativas, e o arremesso é decidido pela CPU…

Estou chegando à lenta conclusão de que talvez seja a mesma garota, quintuplicada, ou são gêmeas quíntuplas!
Palavra-chave. Há uma garota dormindo numa cama (talvez auto-envenenada?). Pista: ela não é Snow White. Você pode acordá-la e comandá-la a remover suas peças de roupa com “uma simples palavra”. Dessa vez pode-se digitar palavras, não apenas escolhê-las num menu (mas o jogo está em japonês, e em kanji, para piorar).¹ Há dicas na interface de LS. É o primeiro jogo que exige alguma massa cinzenta por parte do jogador. Além disso, é o único minigame que não possui o elemento VIOLÊNCIA colado em sua testa (mas fica implícito que algo hediondo pode acontecer se você falhar). Infelizmente, é também o último jogo a exigir resquícios de Homo sapiens do outro lado da tela por estas bandas…
¹ Se você é leitor contumaz do rafazardly e ainda não sabe o que é kanji, aqui está um exemplo de caracteres kanji. Você pode usar o google translator para verificar seu conteúdo em letras indo-arábicas: ロリータ・シンドローム
Dispenso-me de descrever a quarta sala, pela extensão desse review. Só devo apontar que é um jogo de jokenpo, como qualquer otaku poderia ter previsto com relativa segurança antes mesmo de ser apresentado aos 4 minigames – os japoneses amam esse jogo. Incidentalmente, cabe mencionar que a Enix dos seus negros tempos produziu um jogo de RPS (rock, paper, scissor), mais antigo que esse, que provavelmente forneceu o source code dessa sala, Mari-chan Kiki Ippatsu (FM7, PC88),¹ mas a questão é: pedra-papel-tesoura contra a CPU sempre deixa no ar a questão: a IA estaria roubando? Não que deixar mais uma criança 2D nua (ou explodir) seja uma preocupação nossa. Sigamos…
¹ Não surpreendentemente, arranjaram uma forma de punir as perdedoras num game tão “inocente” (quase sempre mulheres, um tema é onipresente aqui, se você ainda não percebeu) como pedra-papel-tesoura com muitos banhos de sangue… Os sprites de inexplicáveis explosões que parecem vir de dentro pra fora foram outra herança de MCKI a LS.
A “galeria de fotos” da última sala serve como final do jogo após sua vitória nos 4 minigames; sua porta está trancada até antes deste momento apoteótico (ironia). Incluí 2 games non-ero-related da própria Enix (ambos dos 80!) nos jogos recomendados, para quem gostaria de apreciar trabalhos mais claros, i.e., mais luminosos e proféticos, com respeito ao que a Enix teria capacidade de se tornar no futuro… Tanto é verdade que um deles se chama JESUS, de forma não-herege, e saiu para Nintendinho numa conversão da ChunSoft, embora limitada ao Japão. O formato é um dos mais raros no primeiro console da Nintendo, o que revela traços do pioneirismo da Enix (não no sentido safado, dessa vez): uma visual novel! Não exatamente gospel no sentido que um cristão classificaria o produto, mas certamente uma estória bonita e envolvendo a persona histórica de Jesus de Nazaré, quase um RPG mítico-histórico!
CURIOSIDADES
1. SE HÁ ALGUMA JUSTIFICATIVA, ESSA SOA PLAUSÍVEL
Nada justifica o jogo ser tão depravado em tantos sentidos – mas ser ruim, ter gráficos horrendos e quase nenhum som… tudo isso pode ser explicado por ter sido programado inteiramente por apenas um indivíduo, Katsumi Mochizuki. Acho que devia dar-lhe os parabéns?!
2. SURF(AC)ING NABOKOV…
Quem melhor que o escritor do livro Lolita para fazer a propaganda do seu jogo simplório e distorcido na parte de trás da caixa? Com certeza não pediram sua autorização, mas veja: “This is ‘Maison Lolita’ where cute girls live. I visited, my heart pounding. A girl’s gentle gaze, unique body shape, and smooth skin… thaaat’s right, I’m a lolicon. An unexpected experience unfolds in Room 1. Horror runs through my body…” Dá para perceber uma certa queda na qualidade do lirismo… a partir de “thaaat’s”… É porque tudo que precede essa palavra pode ser encontrado na própria novela clássica. Repare que “girl” está no singular. Mansão Lolita, para o protagonista pedófilo da novela, era só o lugar ou a ocasião em que ele podia estar sozinho com Dolores Haze, sua enteada de 12, não um harém sem compromisso com qualquer regra. Felizmente, dentre tais regras incluem-se as da verossimilitude… onde Nabokov exerceu sua liberdade artística de modo sublime e incontroverso (já que livros são só palavras – daí que nenhuma tradução audiovisual de Lolita jamais será possível, no verdadeiro sentido da palavra), LS se desviou pelo caminho do absurdo para tentar ser um entretenimento… e ainda bem que não há qualquer verossimilitude entre Dolores Haze e as anime girls aqui contidas, o que nos inclina a perdoar os excessos e abusos cometidos pelo “roteiro” da Enix – ou eu deveria dizer, de Mochizuki?! Para uma percepção mais totalizante e filosófica da novela que inspirou o título deste game, aliás, acesse https://seclusao.org/2023/12/30/lolita-recuperacao-de-citacoes-e-observacoes-nabokov/.
Piada de humor negro de saideira (foi uma jornada exaustiva): a Enix provou, com esse lançamento, que videogames não eram coisa de criança!
֍
Lista de agradecimentos pela cessão de imagens e informações:
GAMEFAQS
TheSAMMIES, um masoquista que parece ter jogado e resenhado todos os jogos da Enix Corporation pré-Enix Corporation como a conhecemos!
MOBYGAMES
Unicorn Lynx
WIKIPEDIA
https://en.wikipedia.org/wiki/Lolita_Syndrome
YOUTUBE
TeclaCualquiera
versão 1
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