Jaguar

Myst
F I C H A T É C N I C A
Developer Cyan Worlds
Publisher Atari
Estilos Adventure / Exploração > Point-and-click
Data de Lançamento 1995
NOTA
7.7
Este jogo é pra…
(X) passar longe (X) dar uma jogadinha de leve (X) dar uma boa jogada (X) jogar freneticamente ( ) chamar a rua toda pra jogar (X) um tipo específico de jogador. Qual? O monge. O gamer que reage bem a desafios intensos. O de metabolismo de urso polar. (X) incógnita
Se você já ouviu alguém descendo a lenha em Myst, também deve ter ouvido, e na mesma cena, alguém acorrer em defesa do jogo alegando que “em sua proposta, Myst é magistral, é que este não é um jogo para todo mundo!”. Na verdade, esta pessoa está certíssima. Acontece que aqueloutra também. É difícil de fazer a mediação, mas realmente Myst se destina a um público assaz específico.

A sinopse de Myst é mais ou menos a seguinte: movimente uma seta pela tela e clique nas estruturas gráficas para coletar pistas e eventualmente trocar de tela. Não há nada tão revolucionário ou pioneiro nisso. Mas algo nesta premissa cheira a clássico. Claro que às vezes essa carapuça serve para desviar, atrás de uma obscura curva, todas as críticas; e Myst não é perfeito, longe disso. O que você sempre contempla é a vista em primeira pessoa do protagonista Atrus. Ele se acha na ilha de Myst tentando resgatar sua amante perdida Catherine. Catherine é a coisa mais importante na vida insípida de Atrus, e ele deve tê-la de volta qualquer que seja o preço. Veremos que, no que tange aos esforços do jogador, esse preço é bem altinho… O que parece simples e até bobinho é incalculavelmente elaborado e delongado. A cada esquina, um novo quebra-cabeça. Usa-se o acúmulo de pistas para chegar mais adiante, um passo por vez.

Sente no divã
Os puzzles são extremamente difíceis. Você passará literalmente de horas a meses em cada um dos quebra-cabeças (dependendo da inteligência normal da pessoa e do seu nível de insights), até que um dia, fora do jogo, você de repente experienciará uma epifania: “Meu deus, essa era muito fácil, a resposta estava o tempo todo diante dos meus olhos e eu não me manquei!”. Fazem-no sentir-se um estúpido por algum tempo, e para os que já têm esse sentimento amiúde na vida, Myst só pode resultar em depressão. Não é mentira: alguns jogadores gastam anos no jogo até finalizá-lo. Torna-se uma espécie de agradável hobby de fim de tarde. Sua avó, se souber mexer num micro, certamente vai se interessar. É um jogo para pessoas mais velhas e centradas, geralmente. O que não justifica seu lançamento para plataformas como o Jaguar CD, cujo público-alvo maciço era a juventude. Lembrete: não esqueça do pedaço de papel logo ao lado ou então de abrir um .txt – se estiver jogando no PC –, porque deixar de resolver puzzles por mero esquecimento de informações é tolice.

Mas vamos falar mais detidamente sobre o tipo de enigmas que carecem de solução em Myst. Tem um, dentro de uma biblioteca, que envolve acionar certas alavancas numa dada ordem a fim de reativar um velho elevador. Amealhar pistas até conseguir mover a maldita engrenagem pode levar toda a eternidade (que contraste com Symphony of The Night, o sinônimo de Ação e praticidade nos games, em que basta dar uma espadada numa roda dentada, e papo resolvido, o elevador do castelo de Drácula começa a funcionar de novo – ah, a singeleza da força bruta!). Deu para perceber que aqui o negócio é malhar o cérebro. Cada detalhe infinitesimal de uma parede irregular da biblioteca terá de ser dissecado pelos seus sentidos num processo que terá forçosamente de ser subdividido em alguns dias, para que seu corpo não termine desidratado e você famélico! Eu sei que para o “grande público” é insanidade pura o que se tem de fazer para progredir, mas…

Outros puzzles requererão uma bela capacidade de síntese documental, fazendo ligações de fragmentos de pergaminhos entre si. Ler é, aliás, um aspecto fundamental, basilar, em Myst. Será uma necessidade sentar em frente ao monitor e ler inumeráveis “livros”. Essa idéia, particularmente, me agrada (vide meu review de Planescape: Torment). Mas esse não é o estilo ideal se você sempre lê com fito interesseiro… Porque, o que você ganha efetivamente além de cultura após todas essas horas de investimento? Só a esperança borrada de que você TALVEZ obtenha uma pista para resolver um dos problemas cabeludos da aventura! O fato é que é admirável que Myst tenha vendido tantas cópias em seu lançamento e virado uma espécie de modinha ou febre em 1995, pois, como eu já ressaltei, não parece ser um jogo para quem gosta de (ou costuma gostar de) videogames (pessoas hiperativas demais para tomar um chá lendo um livro dentro dum aplicativo)! Tenho certa curiosidade para saber qual a porcentagem de donos de Myst que vieram efetivamente a fechá-lo.

Os gráficos pitorescos dessa exótica expedição por uma ilha semi-deserta são um grande colírio! Cada tela parece exigir o máximo do hardware do Jaguar. A vista panorâmica de um farol antediluviano circundado pela agitada marola é resfolegante! Os fundos in-game, já que não há dinâmica nem animações, em 95% do tempo, são de qualidade CG, ou seja, como se pertencessem a um filme interativo. Penso numa ilhota totalmente encapsulada numa névoa perene, que torna a busca por pistas na área ainda mais dificultosa: o efeito de fog ainda é belo se comparado a máquinas como o PlayStation3 (ok, acho que exagerei bastante)! Infelizmente os desenvolvedores perderam a oportunidade de complementar os visuais de cair o queixo (só as árvores é que são poligonalmente inaceitáveis para o olhar de nossa década) com a devida trilha sonora. Não há “música” em Myst numa acepção real. Ela aparece no máximo como produto da cacofonia de vários efeitos sonoros sucessivos relacionados a rodas de metal que Atrus conseguiu pôr em movimento ou então com o barulho produzido quando você insere um item no espaço desejado. Os projetistas se olvidaram de que a arte da música evoca ainda mais sentimentos que as imagens. Os dois combinados teriam engendrado algo realmente monumental!

Mas, resumindo a ópera silenciosa, quem prefere zonear no Grand Theft Auto furando sinais, comendo putas e explodindo carros de polícia vai querer passar bem longe dos mistérios de Myst…
Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo e um tanto apaixonado pela forma velha de se programar jogos
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