suikoden (ps)

PlayStation

Suikoden

Genso Suikoden (Japão)

F I C H A     T É C N I C A

Developer Konami

Publishers Konami

Estilo Role Playing Game

Datas de Lançamento 15/12/95 (JP); 29/11/96 (JP-PlayStation The Best); 12/96 (EUA); 04/97 (EUR); 11/07/02 (JP-PSOne Books); 23/12/08 (EUA-PSOne Classics)

NOTA

8.5

Este jogo é pra…

(  ) passar longe  (X) dar uma jogadinha de leve  (X) dar uma boa jogada  (X) jogar freneticamente  (  ) chamar a rua toda pra jogar  (X) um tipo específico de jogador. Qual? RPGistas que querem sair da mesmice e conhecer um dos maiores clássicos cult do sistema.  (X) incógnita

Quando o assunto é RPG, nunca é importuno aquele que cita a Square, Final Fantasy, Chrono Trigger ou Chrono Cross, certo? É, mas às vezes a galera do mainstream alastra sua miopia sem-tamanho a ponto de ficarmos sem ouvir falar de outros Role Playing Games brilhantes. Enredos que parecerão inferiores à saga FF puramente porque não apresentam o mesmo número gigantesco de continuações. Se não é a Square ou a Enix a produtora, as chances de um excelente título passar incógnito aumentam. Breath of Fire, a franquia da Capcom, e Suikoden, a iniciativa RPGística da Konami, são dois bons exemplos. A Konami, já conhecida por sua qualidade em outros ramos, queria ingressar nesse estilo com o pé direito, sustentando a bandeira da originalidade, ao invés de se limitar a reproduzir pastiches pensando no número de vendas. O que será que os chefes de design da empresa discutiram na primeira reunião que tratava da criação de Suikoden? “Que tal retratarmos a jornada de uma garota misteriosa e seu melhor amigo, que é o escolhido para manipular uma espada lendária e adormecida numa pedra?” “Não, não, muito batido!” “O que dizem então de controlar-se um garoto de uma civilização antiga que pode se transformar em dragão?” “Hmmm, mas isso não foi tentado antes inúmeras vezes?” “É verdade, desculpe, só não pude evitar a idéia!” Pense, Konami, pense! Depois de muitas horas queimando pestanas, nossos cavalheiros digitais chegaram aos esboços mais recomendáveis, que teremos a honra de apresentar a seguir…

Quando a aventura começa você deve naturalmente – como em uma porrada de jogos – nomear seu protagonista, um adolescente, filho de Teo McDohl, um dentre os cinco respeitados Generais do Império de Scarlet Moon. É-lhe permitido entrar em uma reunião sigilosa presidida pelo Imperador Barbarossa em pessoa. Teo acaba sendo escalado para proteger as fronteiras setentrionais do império. Depois de um suntuoso jantar de despedida em sua casa (devemos dizer que apesar de ser filho de um aristocrata seu personagem mais parece um borra-botas, nesse início) você diz “até mais, papai!” e passa a zanzar pelas dependências do sr. McDohl, batendo um papo com familiares e domésticos. No dia seguinte, o primeiro clichê aparece: você faz um passeio de dragão para visitar uma vidente (Leknaat). Seus companheiros mais próximos são Gremio (de Foot-ball Porto-Alegrense), Cleo (Pires) e Pahn. Pahn tem uma forte amizade com Ted, que logo ganha mais espaço na trama do conjunto. Os personagens vão se agregando, e os acontecimentos vão fluindo, num ritmo natural. Você afunda, como num pântano ou na areia movediça, em intrigas, perigos e conspirações bem mais cedo do que poderia imaginar neste mundo de Suikoden. Muito mais tarde na narrativa, só para se ter uma idéia, você, numa reviravolta georgelucasiana, se encontrará de posse do próprio castelo e na liderança de um poderoso exército revolucionário que luta contra o próprio Império no seio do qual nasceu e contra o próprio pai Teo!

Com efeito, acho que não deixei bem clara a quantidade de personagens que você vai terminar por recrutar em suas desventuras: 107 PCs foram criados para esse jogo. Juntos com o pequeno McDohl, estes são os cento e oito que, diz a profecia, conduzirão o continente a novos rumos políticos. Mas há ainda outras dezenas de aparições importantes que não passam de personagens não-controláveis da storyline. Pode parecer demagogia, mas essa mais de centena de guerreiros foi dotada de personalidades e habilidades idiossincráticas num nível que jogos em 1996 desconheciam. Portanto, quantidade significa qualidade em Suikoden, contrariando as leis do bom senso! Se notar que um dos bonecos na tela em que você está é mais proeminente do que os outros cidadãos, seja pelas suas falas, pelo seu penteado ou simplesmente pelos tons de sua roupa, não hesite em tentar cooptá-lo para seu time! Se os convidados irão aceitar, vai depender de inúmeros fatores. Alguns não pensam duas vezes; outros duelam antes de oferecerem seus leais serviços; uns terceiros exigem o engajamento do player em elaboradas ou fugazes side quests. Vai depender dos astros… Assim que se juntarem ao jogador e passarem a morar no castelo dos rebeldes, alguns deles poderão enriquecer o ambiente, além de dar aquela mãozinha nas batalhas sanguinárias: Jeane abrirá uma loja de Runes (artefatos místicos que dotam guerreiros de poderes específicos); Mace será seu blacksmith; Maria custodiará um hotel nos entornos; e Gasper sediará um interessante minigame envolvendo dados no salão de jogos!

Você pode se locomover com até seis personagens simultâneos. Uma party com meia-dúzia não é comum nos RolePlays de hoje em dia, acomodados na previsibilidade dos trios ou quartetos… Um dos 6 tem de ser o Herói, o protagonista – mais imposições do que essa não são feitas (se bem que se você colocar apenas guerreiros que atacam a curta distância não poderá tirar proveito tático das posições de retaguarda). Usualmente, peritos em magia devem ficar o mais longe possível do quebra-pau, como nenhum RPGista, potencialmente, ignora. As batalhas aleatórias tendem a passar num piscar de olhos. Levels são galgados com incrível facilidade visto que os pontos de experiência são mais que abundantes. Cada arma tem um nome e até bem perto do final do jogo ou além (para quem gosta de continuar procurando por segredos) pode ser alvo de upgrades. As weapons possuem elas próprias seu nível, e o último degrau vem a ser o 16. Procure seu ferreiro quando estiver a fim de melhorá-las. Coerentemente, peças de armadura serão compatíveis apenas com as classes para as quais foram forjadas. Um arqueiro não poderá trajar equipamento pesado; um homem não poderá usar fitinhas ou lacinhos, etc. A propósito, mulheres e homens guerreiam lado a lado, bem como velhos e moços. Mas não há indicação do gênero com uma letrinha ou qualquer símbolo nas fichas: a definição fica por conta do diagnóstico visual, e muitas vezes, como em animes, homens são efeminados e mulheres são tomboys, gerando certa confusão e travestismo! A não ser que você queira pôr a sexualidade da pessoa à prova tentando equipá-la com o supracitado lacinho, é claro! Para complementar a sensação de realismo e a complexidade do sistema, nem todos os membros da sua guilda são soldados: alguns ficam alocados em funções mais triviais como na portaria, nos serviços de limpeza de banheiro, como geógrafo e desenhador de mapas ou um dos inumeráveis ajudantes do castelo ou donos de lojinhas.

Faltou descrever duas partes essenciais da gameplay. A primeira: guerras. Guerras acontecem pontualmente durante sua trajetória. As batalhas são como versões superlativas das tradicionais envolvendo apenas 6: dessa vez é todo o seu exército contra a facção rival. Os resultados são definidos mediante um engenhoso esquema de pedra-papel-tesoura, adicionado a elementos de praxe dos RPGs. Falei da brincadeira de rock-paper-scissors porque as opções de menu consistem em três, Attack, Magic e Bow & Arrow. Cada um tem seu ponto forte e seu ponto fraco, de forma que nenhuma das alternativas é unânime e você tem de contar também com a sorte. Você não sabe com quê o inimigo vai atacar (um desses 3), então as chances são iguais para ambos os lados. No entanto, é possível recorrer a expertises como infiltrar ladrões ou ninjas como batedores e garantir que eles contem o que o inimigo está tramando com antecipação. Outro detalhe importante é que se um PC morrer nesses eventos bélicos permanecerá morto, sem qualquer perdão. Isso acontece porque as guerras são a parte mais crucial e marcante do intrincado enredo. O segundo aspecto da gameplay que deixei para este parágrafo é o dos duelos, o exato oposto das guerras multifocais. Em pontos específicos da narrativa, novamente, batalhas de sexteto não serão a norma, mas sim encontros de 1×1. O princípio do Jokenpo volta a valer, porquanto tem-se três opções: Attack, Defend e Desperate attack. Attack vence defesa mas perde para desperate; o comando defend é útil contra desperate attacks mas infrutífero contra attacks comuns; por fim, desperate attacks, uma forma mais poderosa de ataque, podem até sobrepujar as ofensivas normais mas sucumbem à defesa. Deu pra entender?

Ninguém mais renomado na indústria gamer pelas pérolas sonoras sucessivas que emplaca do que a Konami, com repertórios inesquecíveis que respondem pelas OSTs de Castlevania: Symphony of The Night e Vandal Hearts II, só para ficarmos no PlayStation. Mas mesmo essas trilhas sonoras são como que passadas para trás na opinião de muitos pelo material de Suikoden. “Blue Ocean, Blue Skies” é o típico tema equilibrado entre tensão e alegria da tela do mapa; “Royal Palace Consultation” é uma orquestração tranqüila que representa a pompa da monarquia e nos transporta a jardins nababescos e fontes de água cristalina que jorram da genitália de inocentes cupidos de mármore; “Theme of the Advancing Army” é uma melodia bem mais encorajante, servindo de preparo psicológico ao jogador prestes a empunhar a espada em combate. A assídua combinação de ritmos folk, violão clássico, violinos e percussão climatiza o conto de fadas medieval adequadamente. Visite o reino dos anões e a música será áspera exatamente como suas barbas e o trabalho nas minas. Rume ao vilarejo perdido para se enternecer sob acordes que denunciam o triste destino dos aldeões. O castelo de Neclord só podia mesmo passar uma impressão de sombras se avolumando, na forma de teclas de um órgão sinistro e ressonante. Guerreiros poderão se exercitar com o timbre animador da canção do vilarejo bélico ou com a atmosfera auditiva do Templo de Qlon, um símile da paciente e estóica vida oriental. Toda cidadela, dungeon ou demais localidades do mapa possui(em) seu(s) próprio(s) tema(s), e às vezes mais de um, quando algo no enredo faz com que o ambiente mude muito. Mas o mais incrível e inovador é o acesso a um sound test in-game, representado pelo tocador de alaúde que você contrata no meio da estória, capaz de reproduzir solenemente todas as faixas a um estalar de dedos, ops, a um toque de tecla!

Não, Suikoden não vem em múltiplos discos. Os gráficos parecem vir direto de um 16 bits (raios, sequer há animação da correnteza dos rios para simular dinamismo!). Ok, ok, e a arte de capa é ridícula! Eu nem mesmo tenho certeza de como se pronuncia SU-I-KO-DEN! Entretanto, nada disso é suficiente para extinguir o grande valor da obra. Suikoden é uma gema reluzente que nunca teve muitos apreciadores. Escondido atrás da arte horrenda da caixa—americana—e da imagem crua (já ouviu dizer que a beleza é tão profunda quanto a epiderme? Pois é, a feiúra também!) está um RPG admirável feito com coração, com personagens mais do que suficientes para afundar um navio, se todos decidissem subir a bordo ao mesmo tempo! Sempre é válido o lembrete de que RolePlays não necessitam de vários gigas de memória, cenas e mais cenas FMV nem outros vernizes a fim de contar uma bela história, e belamente! Os diversos minigames, side quests, extras e mesmo minimalismos mil da saga principal se encarregam de entreter os gamers por um looongo tempo: no Chinchorin, o jogo de azar, você pode multiplicar sua fortuna ou ser levado à ruína; nos recessos da batalha você até pode juntar a galera no banheiro (opa!) para um luxuriante banho japonês, por nós conhecido como sauna. Aliás, assim que a casa de banho estiver ricamente decorada como manda a tradição, acessá-la com os personagens certos liberará eventos secretos. Como dito, você tem um funcionário só para cantarolar as músicas do título enquanto estiver em sua base rebelde; tem um estúdio à sua disposição para experimentar na criação de artefatos artísticos; e quando tudo isso enjoar há ainda o exercício da pura e simples vocação humana da lábia, isto é, papaguear com todos os residentes do vasto castelo. Como se não bastasse, há mais de um final e o maior estímulo para buscar o melhor deles é que seu arquivo de jogo poderá ser transportado para Suikoden II, a continuação da Konami, para ganhar acesso imediato a personagens e benesses complementares!

Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo e um tanto apaixonado pela forma velha de se programar jogos

Lista de agradecimentos

GameFAQs:

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versão 2 – 2013; 2026.

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