REVIEW N° 1001 DO NEWGEN
PlayStation

Monster Rancher
Monster Farm (Japão)
F I C H A T É C N I C A
Developer Tecmo
Publisher Tecmo
Estilos RPG / Estratégia > Monster breeding (Criatório de monstros)
Datas de Lançamento 24/07/97 (JP); 30/11/97 (EUA); 19/11/98 (JP-PlayStation The Best)
NOTA
8.1
Este jogo é pra…
(X) passar longe (X) dar uma jogadinha de leve (X) dar uma boa jogada (X) jogar freneticamente (X) chamar a rua toda pra jogar (X) um tipo específico de jogador. Qual? Quem curte open-ended sources; odiadores da Nintendo, embora prezem o conceito de criatório de monstros de bolso!; fãs dos dados (me refiro ao cubo com números diferentes em cada face); e CLARO, colecionadores de CDs (não importa que tipo de compact disc), que se sentirão DJs diante de uma pick-up! (X) incógnita
Vida útil estimada: 60h
Na virada dos 90 pros 2000 a modinha “crie seu próprio monstrinho” estava no ápice. Pokémon podia ser o carro-chefe da onda toda, mas estava longe de ser o único. Os produtos com essa temática invadiram as lojas, e pertenciam às mais variadas categorias: videogames (e tem gente que não sabe que o jogo de Game Boy veio ANTES de Ash Ketchum surgir na televisão e pensa que foi justamente o contrário!), trading cards, animes, blockbusters nas salas de cinema, entre outros. No que tange aos games, nosso métier, Monster Rancher é um sucedâneo de Tamogatchi (sim, existe nos consoles também!) e parente próximo de Digimon, mas nunca chegou à mesma fama dos citados – só que o jogo é uma obra-prima do gênero, por isso existe um reduzido grupo de fanáticos que se encarrega, até hoje, de divulgar as qualidades da série!

Cada monstro possui suas forças, fraquezas, lista de golpes e animações que demonstram contentamento e insatisfação
E mesmo que comparações diretas Pokémon-MR sejam tentadoras, a verdade é que os fundamentos não podiam ser mais dissemelhantes. Pokémon é em síntese um RPG com batalhas em turno, pontos de experiência e cujos personagens tiram proveito de power-ups conhecidos como type machines (TMs), itens essenciais na jornada do treinador. Monster Rancher, por seu turno, é a priori indefinível em uma só categoria de jogo, está mais para o lado da Simulação: o objetivo central é incrementar as habilidades do seu monstro prestando atenção em fatores realistas como estresse, fadiga, dinheiro e agenda. As estatísticas do monstro estão divididas em 6 disciplinas (Vida, Poder, Inteligência, Técnica, Velocidade e Defesa). As batalhas são 1×1 em tempo real, embora se necessite do input de menus. O calendário precisa ser levado em conta porque cada criatura treinada deve encarar uma rotina regrada a fim de se desenvolver melhor, exatamente como com um atleta do mundo real. E quanto ao mise-en-scène, está-se num mundo a-tecnológico, sem carros ou eletricidade. Aqui, os monstros desempenham o mesmo papel que cavalos desempenhavam na Idade Média, auxiliando o homem em suas tarefas mais comezinhas. Além de tudo o mais, Monster Rancher possui uma interface autenticamente tridimensional, ao contrário do simplismo bidimensional do best-seller de Game Boy.

Como em Pokémon, não obstante, os monstros existem em uma multitude de raças. Dos mais prováveis fisicamente falando (miniaturas de T-Rex chamadas Dino) a lobos com chifres que se chamam Tiger (!) e sacerdotes com “máscara de sol” no lugar da cabeça (batizados de Gali); passando pela óbvia aparição feminilizada a vestir bikini (Pixie, mais para um youkai de Yu Yu Hakusho que para o pokémon Jynx!) e coelhos bípedes (Hare); e culminando finalmente em character designs mais assíduos em outros títulos, tais quais o Golem, monstro de pedra, e o estranho tentáculo com olho, Suezo, que adorna a capa… a fauna é ao mesmo tempo familiar e exótica, agradando gregos e troianos. O elenco pode ser mais enxuto mesmo que o da primeira geração de pokémon, mas não estou falando só de 20 monstrinhos, não. Deixei de citar vários deles. Há em torno de 150 modelos singulares para encontrar, embora as raças sejam menos – uns mais óbvios, outros mais secretos. Se o número foi inspirado nos cento e cinqüenta pokémon (a rigor, 151!) responsáveis por tornar a marca da Nintendo famosa? Nãããão, que isso – quem levantaria uma hipótese tão ultrajante!!

Números, números, números…
Um dos diferenciais é poder produzir híbridos em laboratório. A desvantagem é que esse processo gerará uma criatura muito parecida com seus pais: um Tiger azul acasalado com um Dino verde ou um Golem cinza pode gerar um Tiger escamoso ou com pedregulhos como tecido epitelial! Mas os monstros de proveta são só UMA das duas modalidades para obtenção de “novos recrutas para seu rancho”, e o mais instigante vem a seguir: o grande conceito por trás de Monster Rancher (cujo desenho mostrava um garoto que foi transportado a um mundo fantástico depois de tentar ligar seu… PlayStation com um CD de jogo dentro!): se você inserir QUALQUER DISCO (não pode ser DVD, Blu-ray, tem que ser CD, hein, manezão!) no videogame, seja ele qualquer outro jogo do repertório do PSOne, e até mesmo dos concorrentes Saturn, 3DO e PC, mera mídia de instalação de software, álbum de música, etc., etc., um monstro vai ser gerado, com base no serial number único de cada disquinho. É sério, gente: QUEM DIABOS VEIO COM ESSA IDÉIA TEM DE ENTRAR PARA A CALÇADA DA FAMA DOS GAMES EM DEFINITIVO! Essa novidade sem precedentes vai fazê-lo caçar CDs velhos em gavetas e estantes empoeiradas da sua casa que você nem imaginava possuir ainda! Vale o esforço só pela curiosidade: “que monstro vai aparecer se eu colocar este aqui?”

No ‘coliseu’…
Você pode ignorar o charme-mor de Monster Rancher e nunca trocar o CD do jogo por nenhum outro no seu Play1, limitando-se a experimentações laboratoriais, mas honestamente, até considerando suas chances de prosperar, não faz sentido, já que os CDs trazem monstros do zero, com grandes chances de serem inéditos, ao contrário dos cruzamentos de código genético! A propósito, aqui estão algumas sugestões para os beginners: Final Fantasy VII tem 4 CDs de jogo; o disco n. 1 rende uma Pixie; o n. 3, um verme (Worm); NFL Gameday ‘98 cria um Trident (não o chiclete, uma pena…). Interactive sample CD versão 3.5 (um disco velho que achei aqui) me trouxe um Grape! Magic Carpet (jogo de Windows) vira um Naga. Eu poderia ampliar a lista indefinidamente, mas estamos com limitações de tempo e espaço! Aos sem-sal que “não sabem brincar”, aqui vão boas experiências de laboratório também: cruze um Worm e um Naga e obtenha um Wing Worm; misture um Suezo e um Naga para receber um Noro; junte Pixie e Gali a fim de gerar um Angel; já 1 Tiger + 1 Naga = 1 Striker.

As missões de treinamento são qualquer coisa de hilário…
Mas chega de falar de “como adquirir o monstro x” e vamos descrever o processo de treinamento no rancho, o cerne da jogabilidade. Privilegiando a concentração e a dedicação, você só pode treinar 1 ser por vez, de modo que enquanto um monstro está ativo todas as suas outras posses permanecem em “criogenia” em algum lugar. Maioria dos exercícios prescritíveis ao seu treinado se baseiam num ciclo semanal. A performance do bichano é retratada em cutscenes 2D que lembram revistas em quadrinhos (vide foto acima). Se o monstro se der bem nessas missõezinhas, vai receber bônus nos seus atributos e um pouco de dinheiro. Dependendo da raça, tem-se um talento natural para desempenhar certos tipos de tarefa: Golems evoluem rapidamente em Power, ao contrário de Pixies… O calendário exige semanas de descanso intermitentes também. Você pode até se recusar a deixar seu monstro de folga e pegar pesado como treinador, o que vai fazer a criatura definhar a longo prazo, bem provavelmente. Na outra mão, mimar demais os bichos pode torná-los vadios inúteis, fracotes nos números e que abandonam qualquer missão antes de completá-la. Quando o treinador peca para mais ou para menos, há sempre um item ou outro que podem consertar esses defeitos de criação. Outra possibilidade é enviar o monstro para cursos intensivos de treino que duram 1 mês, quando ele tem a oportunidade perfeita para aprender técnicas especiais utilizáveis em batalhas. Por último, há expedições a localizações exóticas com o intuito de buscar itens raros. Sendo como for, você nunca controla seu monstro diretamente nessas atividades, então se mexer em menus não é seu forte, passe longe de Monster Rancher!

No que pareciam ter sido 2 horas, olhei no relógio e descobri estarrecido que já tinha jogado por 8 horas consecutivas!!
Monstros crescem, atingem um auge, reproduzem-se ou não (conforme sua vontade), envelhecem e, naturalmente, morrem. Pois é, mesmo sendo jogo de videogame, morrem, sim senhor. Na escala de tempo do jogo, em 6 a 10 anos, de regra. A escolha recai entre permitir uma maior durabilidade mas com menor eficiência ou explorar sem dó o bichinho, convertendo-o em espécime de elite, que tende a se desgastar antes do tempo. Fato é que enquanto estiver congelado, um monstro durará eternamente, e poderá ser usado no two-player battle mode. Mesmo monstros em criogenia podem ser usados nos experimentos de laboratório, garantindo assim a continuidade da prole. Na prática, você tem tudo para ampliar ou pelo menos conservar o número de crias no seu rancho, a despeito da finitude das vidas individuais. MR possui uma ferramenta de save instantâneo, então não hesite em explorar essa vantagem: fusão fracassada no lab? Cancele e tenta outra coisa no lugar!
Só ficou faltando detalhar com mais afinco as batalhas, outro aspecto de relevo da jogatina. Os confrontos são bem curtos (60 segundos) e não parecem em nada com Street Fighter ou Tekken – ainda bem, no caso de Monster Rancher, pois ninguém está aqui para apertar vários botões rapidamente nem dar meias-luas adoidado! A maior questão é a probabilidade, como nos sistemas de RPG de mesa: uma barra chamada “guts” (digamos que seja “disposição para bater e apanhar”) vai enchendo conforme os segundos passam, e os números da sua ficha mais o acaso ajudarão a determinar os montantes de dano causados em cada “turno” de ataque (uso as aspas porque se você comer mosca fica só recebendo ataques, e o mesmo vale para a CPU ou o segundo player). Mesmo com dados intermediando seu sucesso, o controle do gamer sobre as ações ainda é razoável: pode optar por uma estratégia fugaz de aumentar o guts meter mais depressa para lançar um super-ataque inicial e depois arrefecer pelo restante do round e assim por diante… Considerando que os gráficos não estão fracos para um game de meados da vida do PlayStation, é surpreendente constatar que as animações são outrossim detalhadas e lépidas – me faz pensar o quanto Pokémon Stadium conseguiu ser preguiçoso, sendo bem mais estático apesar do hardware mais evoluído do N64!

Não sabe se banca o autoritário ou o mestre-bonzinho? Dica: Nagas e Pixies precisam de uma educação mais linha-dura, ao contrário dos Dinos e Tigers, que são naturalmente responsáveis, mas que precisam receber afagos constantes para manter a auto-estima!
Basta seu monstro estar vivo para ser inscrito em qualquer torneio de luta na mesma semana do calendário: é o único pré-requisito. As premiações para os campeões são generosas. Sua cria recebe uma classificação num ranking que varia de E a S (as escalas intermediárias são D, C, B, A, um loooongo caminho até a evolução final!). Fique ligado para os torneios OFICIAIS, competições que se realizam, ao contrário das comuns, só de 3 em 3 meses: só se dando bem nestas é que seu bichinho pode subir de ranking. Quanto melhor a nota do seu monstro, mais dinheiro e prestígio ele vai amealhar, e os novos ginásios são visivelmente maiores e mais luxuosos (pense numa Copa do Mundo dos monstros de rancho quando chegar à letra S!). O único problema é que os monstros não mudam nunca nas chaves dos torneios. Você tenderá a desenvolver rivalidades – sadias ou não – sempre com as mesmas raças que cruzarem seu caminho e impuserem maiores dificuldades. Um pouco mais de randomização aqui seria apreciada!
Monster Rancher não tem um final propriamente dito. Mesmo vencendo torneios oficiais de nível S, sempre haverá novas variantes de espécimes para criar; e até para quem já esgotou inclusive esta possibilidade, batalhar contra um amigo é o último bastião da diversão.
E, em tempo, a pergunta que não quer calar: que monstro aparecerá quando eu inserir meu CD Painkiller do Judas Priest no PSOne???
Monster Rancher foi relançado para Android, iOS e Switch em 2019.
Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo não-praticante e um tanto apaixonado pela forma velha de se programar jogos
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