Nintendo 64 & PlayStation
FIFA 99
F I C H A T É C N I C A
Developer EA Canada
Publisher EA Sports
Estilo Esporte > Futebol
Datas de Lançamento 30/11/98 (EUA/EUR), 26/08/99 (PS, JP)
NOTA
7.4 (N64) | 8.3 (PS)
Este jogo é pra…
(X) passar longe (X) dar uma jogadinha de leve ( ) dar uma boa jogada ( ) jogar freneticamente (X) chamar a rua toda pra jogar (X) um tipo específico de jogador. Qual? O colecionador futebolista; quem quiser jogar as ligas brasileira ou belga no conforto do seu console caseiro retrô. (X) incógnita
Há quem não goste do monopólio exercido pela Electronic Arts no reino do futebol. De qualquer modo, assume-se que essas pessoas nem abrirão o review, então este texto se dedica mais aos “fãs incondicionais” e ao grupo dos que têm um olhar crítico mas que conseguem suportar a gameplay da franquia, ou simplesmente têm um interesse histórico pela “evolução dos jogos eletrônicos de futebol”, com seus descaminhos e percalços naturais.

Outono (europeu) de 1998. Esses eram dias antes da criação da série capaz de vender múltiplos de milhões de cópias a cada edição, o mais próximo de ser um FIFA nos números: estou falando de Pro Evolution Soccer. Eram dias em que o auge de International SuperStar Soccer, a primeira franquia futebolística da Konami, já tinha passado e a EA Sports reinava sozinha no ramo. FIFA 99 veio para os consoles do momento (as bolas da vez), Nintendo 64 e PlayStation, com algumas diferenças determinadas pelos tipos de mídia que ambos rodavam, o que explica a melhor avaliação destinada ao periférico da Sony.

Cuidado pra não me machucar com essas pontas, cara!
FIFA 96 e 97, eu considero, eram os melhores em jogabilidade, mas todos riam de seus gráficos. FIFA 98 deu um bom salto na engine gráfica, sem deixar de conter atletas absolutamente artificialescos e com ponta para todo lado. As caras amassadas mais pareciam as de um perseguidor do Pernalonga ou do Papa-Léguas massacrado por um rolo de macarrão gigante… Portanto, no espaço de um ano FIFA 99 não poderia fazer milagres. Continua uma lenta melhoria, com maior taxa poligonal por corpo, mas mesmo para o período ainda deixava bastante a desejar. Se o melhor trabalho não era feito na caracterização dos atletas, os estádios eram dos mais belos num game do gênero na virada do milênio. Há até pequenas seqüências que servem de prólogo a um duelo, exibindo os contornos do estádio em zoom-out, como os carros e as pessoas chegando, do lado de fora. Fica até com cara de pré-jogo do Sportv!

Sem dúvidas a EA Sports é mais feliz no som que na imagem. Mas no PlayStationOne muito mais que no Nintendo 64, por razões mais que óbvias (cartuchos vs. CDs). No fim do século passado a série FIFA se tornou conhecida por ampliar os holofotes sobre as canções do mercado fonográfico que ela escolhia comprar a cada temporada. Confesso que boa parte das bandas responsáveis pelos temas-títulos eu só conheço graças à série: Chumbawamba, Blur (edições pregressas), e agora Fatboy Slim (Rockafeller Skank) e Lionrock (Rude Boy Rock). Às vésperas de se iniciar a efetiva jogabilidade, a outra parte entra em cena: Des Lynam ou Gary Lineker (só no PS1) discursam no abre-jogo. No Nintendo 64 não é bem um discurso, mas uma frase tão curta quanto estúpida no estilo de “os dois times que irão se enfrentar se equiparam”. A bola passa para John Motson daí em diante, na versão 64 bits. Já no PS1 Des (ou Gary) exporá detalhadamente as circunstâncias do embate, apresentando cada equipe, a competição pela qual a partida é válida e seu parceiro nos comentários, como é usual na TV (transmissões em dobradinha). No Nintendo 64, Motson narra e comenta ele mesmo, nada tão divertido e convincente quanto Mark Lawrenson e Chris Waddle mandando piadinhas sacanas…

Batendo cabeça com os controles…
Não é só nos nomes dos “dubladores” que as vozes mudam entre as duas plataformas. No N64, devido à falta de capacidade para armazenar dados, os comentários são superficiais, inexatos (quase nunca batem com a imagem) e apáticos. Não se pronuncia o nome dos jogadores e só as jogadas mais essenciais recebem uma análise mais direta: gols, grandes defesas, erros de finalização notáveis, faltas e substituições. Se houvesse um comentarista como o de N64 no mundo real, seu emprego não duraria uma semana (ou seria o Neto, indemissível sabe-se lá por que razão)! No PlayStation, as linhas são versáteis, realistas, agradáveis. Os nomes dos atletas que pegam na bola são citados e narrador-comentarista fazem trocadilhos e interagem o tempo todo. O narrador realmente enlouquece narrando o gol. Aspas de fato engraçadas (pelo menos das primeiras vezes) surgem, como “Parece até que ele perdeu o cachorrinho, olha só a cara de desapontado!” ou “o jogador se contundiu, ele está precisando mesmo da esponjinha mágica!”. Os cantos de torcida ganharam em densidade em relação a FIFA 98 e World Cup. Basta jogar em Anfield para sentir o bafo quente dos kopites na nuca: “Liverpool!… [três palminhas]… Liverpool!…”. Finalmente ao erguer a taça o estádio todo vem abaixo, coisa rara num jogo de futebol, ao período.

Um oferecimento JVC
Há muitas maneiras de jogar FIFA, isso eu tenho de reconhecer, sobretudo nesta atualização: diversas ligas domésticas, a Champions League, a Copa da UEFA (antiga Europa League), Winners’ Cup (mundial??) e uma copa 100% customizável pelo próprio player (ficou faltando a sangüínea Libertadores, entretanto!) – essa última opção deixa margem para criação de regras e inclusão de todos os participantes sob critérios particulares. São inumeráveis times de países diferentes contemplados (ok, para quantificar o “inumeráveis”, aí vai: 210 clubes + 40 seleções): primeiras divisões belga (novidade em relação aos FIFAs mais antigos), da Inglaterra, da França, da Alemanha, espanhola, americana, brasileira (!!!) e da Holanda, além de uma coletânea de clubes do “resto do mundo”, que na verdade, salvo engano, se restringem ao próprio continente europeu, pegando as camisas mais tradicionais de países periféricos tais quais Grécia, Croácia e Rússia. Não poder atuar com o Boca Jrs. é uma de minhas maiores decepções com ess@ disco/fita. É viável alterar nomes de jogadores e até das agremiações. Não vejo motivos para fazer o segundo, mas atualizar elencos dá um ar fresco a um jogo tão arcaico. Dá até para se pôr dentro de campo através do editor facial – muito embora não seja realmente você, mas um clone cartunesco de cara amassada, lembra?
A equipe desenvolvedora resolveu tirar o modo meio sem-graça Penalty Shoot-out e implementar um Golden Goal (moda à época) no lugar. Mas não se trata de uma mera prorrogação em que quem marcar primeiro vence: o jogador pode estipular o número de gols necessário para um dos lados ganhar, e a partida não terá cronômetro – autêntica pelada em gramados oficiais! Outra esquisitice que pode ser útil nos momentos mais apressados é a Quick Start, que leva 1P X CPU (ou 1P X 2P, ou 1P&2P&3P&4P X CPU, ou 1P&2P X 3P&4P, enfim…) direto a um estádio britânico para a disputa de um superclássico entre Manchester Utd. e Arsenal: nada de menus enchendo o saco e tirando preciosos segundos da sua diversão, mas fica a pergunta “Por que diabos United e Arsenal?”. Enfim, tinha que ser alguém, não é mesmo?

Que pé d’água!
O penúltimo parágrafo talvez seja o mais desalentador/revelador, e foi proposital inseri-lo no arremate da matéria, para que o consumidor pense bem antes de arriscar se aventurar num FIFA, apesar de todas as suas qualidades atreladas a customizações e licenciamentos. Os controles permanecem quase inalterados em relação ao 98, dessa vez com um incremento relevante, apenas, que é a simulação de mergulho em não-faltas (o popular neymarismo). Graças aos deuses, L1 ou C-cima ainda dão um bravio carrinho. É lamentável que o mesmo comando não esteja presente no FIFA 12, por exemplo! No caso, mesmo não sendo sádico você precisará muito do botão do carrinho, já que a tackle (tentativa de retomar a posse de bola só com um ligeiro movimento de uma das pernas) continua sendo bisonhamente favorável somente à CPU. A inteligência artificial é obscena e revoltante. Rouba até dizer chega, até no level easy! De quando em vez o tackle será simplesmente nulo para o jogador humano, sendo virtualmente certo que a CPU chegará na cara do gol, no mano a mano com o goleiro, que ademais é um coringa, deixando passar ou espalmando bolas simples e segurando sem dar rebotes verdadeiros tirombaços! Mesmo que as estatísticas da CPU sejam mais baixas que as do seu time, os atletas alheios atingirão velocidades inexplicáveis, porque maiores que as dos seus, seja aos 0 minutos de jogo ou aos 90 (quando já deveriam estar cansados). Metade dos atacantes do jogo não tem atributos bons o suficiente para chutar bem a gol, então espero que você se amarre em controlar o Manchester United, dado que é o único time que presta para todas as horas (São Marcos que o diga)… Mas essas falhas são “apenas” reminiscências de velhos FIFA – sempre estiveram no pacote –, e não “criadagem” do momento, então se você já não se sentia incomodado por elas, não será dessa vez…
Apesar do Michael Owen parecer um personagem egresso dum clipe de Manic Street Preachers neste jogo, ele (o jogo, não o atacante inglês!) ainda tem um lugarzinho reservado no coração dos nostálgicos que o experimentaram há tantos anos…
Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo e um tanto apaixonado pela forma velha de se programar jogos
Lista de agradecimentos
pushon10, DelPiero, kernafigjam do gamefaqs.com
mobygames.com
versão 2 – 2013; 2025.


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