PlayStation
Final Fantasy Chronicles
(Coletânea com os jogos Final Fantasy IV / Chrono Trigger)
F I C H A T É C N I C A
Developer TOSE
Publisher SquareSoft / Square Enix
Estilo Role Playing Game
Datas de Lançamento 29/06/01 (EUA), 06/03 (EUA, Greatest Hits)
NOTA
8.7
Este jogo é pra…
(X) passar longe (X) dar uma jogadinha de leve (X) dar uma boa jogada (X) jogar freneticamente ( ) chamar a rua toda pra jogar (X) um tipo específico de jogador. Qual? Pelo interesse histórico; amantes da dificuldade (no caso de FF4); quem odeia batalhas randômicas (no caso de CT); masoquistas homeopáticos e sua tara por loadings (ambos!). (X) incógnita
Mais uma da interminável série de compilações da Square no longo velamento do hardware do PlayStationOne, dessa vez tratando de reintroduzir no mercado americano Final Fantasy IV, além de fazer a cabeça dos supernintendistas trazendo um dos seus mais consagrados RPGs, com a vantagem de ser bem mais barato (e muitas desvantagens, conforme veremos). Tudo que se poderia falar de Final Fantasy 4 já está contido na análise de Final Fantasy Anthology: European Edition, por isso evitaremos a redundância, passando direto ao “que importa”, que é no caso o re-review de Chrono Trigger.


* * *
Ouvi e li tanta coisa boa de Chrono Trigger na vida que vocês nem imaginam. Quanto ao remake playstationiano, o discurso não difere muito. Portanto, esperava por um repeteco do 10/10 da análise 16-bit. Desafortunadamente, CT de PSX só consegue ser o primeiro numa lista elaborada por mim: a do título mais overrated. Não chega a merecer uma nota “EPIC MERDA”, graças a seus méritos congênitos, mas não é sombra do RPG que já foi e do que dizem ser, embora seja definitivamente a decepção dessa coletânea – ao meu ver, ERRONEAMENTE batizada de FF Chronicles…


Chrono Trigger explora à exaustão os clichês mais estabelecidos do gênero. Um garoto qualquer (porém predestinado a salvar o mundo) de uma cidadezinha qualquer (porém predestinada à quase-catástrofe) acorda, e aliás acorda atrasado (Link?), para as festividades do aniversário da libertação do seu povo. No papo com a mamãe, descendo as escadas, recebe um dinheirinho, que infelizmente não dá nem para a entrada (não que cobrem ingresso para o festival, foi só uma maneira de falar), ao se considerar os milhares de barraquinhas da praça pública, cheios de badulaques e guloseimas mil. Abre-se um menu para que você nomeie o herói, que não necessariamente precisa se chamar Crono, como na storyline oficial.
O primeiro erro grosseiro nós verificamos quando Crono ou quem quer que seja sai de casa e aparece no overworld map: ao invés de termos um vilarejo propriamente dito, trata-se de um continente-ilha com esparsas casas aqui e ali, sem o menor padrão de ocupação. Nada de excepcional há de se fazer que não ir de imediato à supracitada feira, ao Norte. Muitos minigames que o fazem perder grana adoidado e pessoas e mais pessoas com quem conversar depois, ou mesmo durante essas primeiras “tarefas”, vai ficar clara para o usuário de PlayStation a principal nêmese do disco, e de todos os discos-retrô da SquareSoft chamados “Final Fantasy alguma-coisa” para o sistema: loadtimes severos.
Não poderiam faltar os artworks inéditos, explorando a maior capacidade de armazenagem dos compact discs! Alas, até aqui temos uma mancada feia, onde era pra nos concentrarmos nos elogios: esqueceram de traduzir as legendas em japonês!! A falta de esclarecimento quanto ao que dizem os subtítulos interfere na melhor compreensão da trama em pelo menos dois momentos cruciais… Eita, eita, se não tivesse GameFAQs no mundo, o que alguns gamers não fariam!!
Acredite ou não, mas o menu da tela de pause demora de 20 a 40 segundos para carregar… (10 segundos, se você estiver rodando o CD num PlayStation2, ó, mas que maravilhoso consolo!!) (Prepare-se, aliás, para o confronto final com Lavos – se agüentar chegar até lá nessas condições –, em que cada mudança de plano de fundo – e são MUITAS delas! – vai ocasionar quedas espantosas de framerate, argh!!…). Bem que eu queria estar dramatizando… mas essa não é a minha role! Qualquer outra tela demora outros 10 segundos para carregar totalmente. A gameplay fica jogada ao deus-dará, sem o menor sinal da fluidez extraordinária dos tempos de Super NES.

Pelo menos, apesar dos chavões, a trama se desenvolve de maneira apropriada. Na feira, Crono conhece a simpática, estabanada e atiradinha Marle, que tem lá seus segredinhos que não vai revelar tão-logo… Em seguida, ambos (pois agora você está no comando de uma dupla, e não só de um personagem) vão ao encontro de Lucca, a amiga intelectual de Crono. Não que Marle precise se chamar Marle nem Lucca, Lucca. Ah, você entendeu! Importante ressaltar que uma das mecânicas de jogo mais notáveis começa a valer desde o recrutamento da segunda personagem: como o RPGista ficará sabendo várias horas mais tarde dentro do jogo, a partir do envolvimento de Crono com Marle, Crono (o único PC fixo do time) passa a ser “vigiado e julgado” diferentemente, baseado em pequenas ações tomadas pelo controlador. E o que essas “testemunhas misteriosas” têm a dizer não costuma ser coisa boa. É mais ou menos como se um professor resolvesse bater um papo com uma de suas aluninhas no seu tempo livre e alguém observasse tudo de binóculos e câmera fotográfica na mão: mesmo se for com a melhor das intenções, ele terá muito o que explicar diante das autoridades e da moral e dos bons costumes no futuro! Obviamente que isso enriquece os espectros de interatividade do jogo; longe ainda de um livre-arbítrio, já que os roteiros são rígidos, mas só de saber que há mais de um já ficamos contentes.

Voltando à descrição inicial da estória, Lucca mostra aos dois outros jovens sua mais nova invenção. Como toda cientista louca, um grande problema pode (e vai!) estar nascendo justamente aí! Mas quem diria que numa sociedade de contornos medievais alguém poderia desenvolver um teleportador instantâneo! Como todos que conhecem as confusões de Lucca evitam se alistar como cobaias, Marle, a mais inocente da história, acaba pega para Cristo; mas ao invés de reaparecer no segundo módulo da máquina, sendo teletransportada por alguns metros no ar, ela simplesmente desaparece, abrindo-se uma fenda dimensional na frente de todos os espectadores. Crono e Lucca, unidos por uma forte amizade e senso de dever, pularão no buraco de minhoca sem pensar duas vezes… As conseqüências pueris desse ligeiro experimento se mostrarão, doravante, cada vez mais gritantes.

Se tem alguma boa notícia nessa trágica adaptação de CT? Alguns glitches dos 16 bits, nomeadamente os da era 2300AD, foram removidos! Maioria dessas imperfeições se refere a anomalias presentes nas caixas de diálogo da versão ocidental de SNES…
Muitos críticos consideram o sistema de batalhas de Chrono Trigger como seu ponto forte. Mas isso é o que ele não é. Longe de revolucionário, trata-se apenas de uma reprise do ATB system inventado justamente para FF4 (daí a associação que se faz entre um game e outro a ponto de estarem na mesma coletânea). Não me entenda mal: as lutas não são maçantes, mas veteranos jamais ficarão boquiabertos ou deslumbrados com o que encontrarem. O que mais singulariza os combates de CT é a intervenção facultativa de combos de múltiplos personagens. Naturalmente, são mais potentes do que ataques comuns e mesmo do que várias magias-solo, porém consome-se o turno não apenas daquele que lança o comando mas do outro lutador envolvido; além do mais, só se aprende uma técnica nova depois de subir muitos níveis, e o status dos membros precisa permitir a operação. Basicamente, são pré-requisitos demais e nem sempre vale todo o esforço.

A trilha sonora (chefiada por Yasunori Mitsuda) fez escola em RPGs da Square. Um dos temas de batalha decisivos de Final Fantasy IX, por sinal, não passa uma ligeira variação do Dino Theme (música de fundo da era pré-histórica) de CT. Não estou dizendo que é uma coisa ruim essa “coincidência” ou “influência”, já que na maioria das vezes as faixas de Chrono realmente pedem um encore!

Quanto aos personagens, eu diria que eles são mais bonitos por fora, graças ao traço de Akira Toriyama, que profundos por dentro, pois carecem de um desenvolvimento psicológico de relevo, sem tantos estereótipos cansativos. É um RPG que claramente faz uma média com a “massa”, para cair nas graças de todo tipo de usuário de SNES, até daqueles que nem ligam muito para o gênero em questão.

As FMVs de FF4 são p o d r e s!
Como implicação mais distante da ramificação do roteiro após escolhas individuais, CT apresenta múltiplos endings – 12, se não estou enganado. Eles são hierarquizados do pior para o melhor, com base na dificuldade que se tem para atingi-los e também no tamanho e densidade das revelações finais. Fatores mais controláveis e observáveis já no fim da jogabilidade, como “em que época se derrota Lavos” coexistem com aqueles mais remotos, que vigoram desde o primeiro encontro com Marle. Esse efeito-cascata é interessantíssimo, por mais que seja uma tática – pelo menos hoje! – meio barata de se prolongar a vida útil do jogo e “forçar” seu dono a explorar todos os centímetros cúbicos de possibilidades até poder afirmar de peito erguido que zerou Chrono Trigger de todos os jeitos concebíveis.
* * *

É impossível negar que muitos games ficam melhores não-portados nem atualizados para novos sistemas. Os de Super Nintendo são clássicos e aulas de perfeccionismo. Os loadings e paralisações da mídia CD e outros problemas quase sepultaram o conceito original de ambos os RPGs, na conversão. Então esteja avisado. Um pró de FF4, não obstante, é que a tradução para o inglês foi revista (assim como na versão FF Anthology: Europe, em que o remake é idêntico a esse) em relação ao fraco port (no que se refere à linguagem, apenas) para SNES (com o nome Final Fantasy II), e com isso o enredo ficou mais fiel do que nunca ao original nipônico.
Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo não-praticante e um tanto apaixonado pela forma velha de se programar jogos
Lista de agradecimentos
GameFAQs:
Cyril
darthjulian
michiyoko
UltimaterializerX
gotenksten07
versão 2 – 2014; 2025.





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