Neo Geo
+ Arcade, PC, PS4, Switch, Wii & XONE.

Ninja Masters
Ninja Master’s Haou Ninpou-chou (Japão)
ACA NeoGeo: Ninja Masters (PS4/Switch/XONE)
F I C H A T É C N I C A
Developer ADK, SNK (PC)
Publishers SNK / ADK / D4 Enterprise / Hamster
Estilo Luta> 2D
Datas de Lançamento:
NEO
28/06/96 (JP), 27/09/96 (JP, versão CD)
ARC
25/05/96 (EUA), 27/05/96 (JP)
PC
20/04/23 (EUA, versão digital)
PS4
17/01/19 (JP, Ásia)
SWI
17/01/19 (EUA, EUR, JP)
WII
26/07/11 (JP); 22/11/12 (EUA); 10/01/13 (AUS-EUR)
XONE
17/01/19 (EUA, EUR, JP)
NOTA
6.8
Este jogo é pra…
( ) passar longe (X) dar uma jogadinha de leve ( ) dar uma boa jogada ( ) jogar freneticamente (X) chamar a rua toda pra jogar (X) um tipo específico de jogador. Qual? Entusiastas do período medieval japonês; amantes de bons personagens e cenários vistosos; jogadores de fightings mais casuais. ( ) incógnita
Um austero contraste com o colorido mundo de Samurai Spirits/Shodown, a franquia-mor da SNK e de Luta em geral quando o assunto é artes-marciais tradicionais do Oriente: assim se define, a priori, Ninja Masters, o discreto projeto de fighting 2D da ADK. Não só porque as cores são muito menos vivas, mas porque a apresentação como um todo se inclina à seriedade e à melancolia. Esta é a época da pré-Restauração japonesa, o que significa uma sangrenta guerra civil por todo o território do arquipélago. Nessa realidade alternativa, Nobunaga Oda, o primeiro imperador do Japão unificado dos livros de História, não é um personagem glorioso, mas o grande vilão: para conseguir vantagem sobre os outros daimyo (senhores feudais que disputavam hectare a hectare as terras onde reinar), esse cruel conquistador vendeu a alma para… forças estrangeiras; mas isso não é muito diferente de “o demônio” para a oposição local. Vários lutadores se reúnem com o fito de derrubar Nobunaga Oda antes que ele seja formalmente reconhecido como o verdadeiro líder da nação.

São dez personagens os oposicionistas mais fortes ao incipiente regime. Além de Oda, o final boss, seu principal assecla, Mori Ranmaru, também está no caminho, como subchefe. A atmosfera realista (tirando a megalomania de Nobunaga e a possibilidade de definir o futuro dum país em combates 1×1, mas aí seria querer demais!!) do título garante characters mais verossímeis do que na média dos fighters. Goemon é o ladrão de bom coração, espécie de Robin Hood da Terra do Sol Nascente; ele é perseguido pra cima e pra baixo pelo parrudo e cabelo-de-fogo Raiga, o caçador de recompensas; Unzen é um monge budista inclinado a surtos alcoólatras; Houou é um exorcista; Tennou é o “velhinho sábio aparentemente muito frágil mas que consegue bater em meio-mundo” que não podia faltar, e que me desculpem os exterminadores de estereótipos!; finalmente o primeiro ninja na acepção da palavra, honrando o título, é Kasumi, uma kunoichi excelente no ninjutsu (e só para não deixar dúvidas, se é “kunoichi”, significa que é uma fêmea!); outra bem parecida é Natsume, a não ser por ser bem mais velha e ter um rosto menos estilizado como num mangá (vide foto acima); o protagonista, similar no que é possível com o protagonista de Samurai Shodown Amakusa Kourin, é Sasuke, o ninja que abandonou seu clã na caça a Nobunaga; e que por isso mesmo é, ainda, perseguido por assassinos que não toleram uma infração ao código de honra, dentre eles o personagem jogável Kamui, seu ex-melhor amigo de infância; com excepcional carisma entre os players, devido ao seu design arrojado, contudo, superando o apelo até mesmo de Sasuke, temos Karasu (que significa corvo), um andarilho perigoso que tem algum vínculo empático com as aves das quais arrancou o codinome, afora que possui uma espécie de espada senciente. Pelo menos força no elenco Ninja Masters tem!

A ADK elaborou uma mecânica eclética, com vários elementos de outras séries então populares nos Arcades e Neo Geo. Um ponto a ressaltar é que na série de espadachins da SNK o guerreiro que perdesse sua arma ficaria em graves apuros, ainda que não levasse mais do que alguns segundos para recuperá-la. A originalidade de Ninja Masters, que copia as lutas de espadinha, consiste em que há dois modos, com e sem empunhar katanas, e dá para se virar tranqüilamente de mãos nuas! Natsume em particular é terrivelmente superior quando desarmada! Os special moves e os combos mudam integralmente, conforme a modalidade em que os fighters estejam pelejando. Táticas agressivas são encorajadas através da ferramenta do super meter, que cresce à medida que se ataca (ao passo que em muitos jogos, à caça de maior equilíbrio, tais barras são ativadas somente quando a energia chega às últimas). Uma barra de super cheia leva ao Hyper mode, ativado com a pressão de três teclas ao mesmo tempo. O modo Hyper de cada lutador, por sua vez, é o estágio supremo de alguém durante a luta, e só através dele é que se executam os super combos, sem falar que golpes comuns tiram bem mais life quando o lutador está em Hyper. Com efeito, outro ponto estratégico é que super combos consomem a barra de Hyper, enquanto que golpes normais não. Resta saber se você é daqueles gamers que optariam por uma aposta alta contra o inimigo, tentando liquidá-lo nos próximos segundos, ou se pensa a médio prazo, preferindo conservar o modo Hyper, mesmo que não lance mão dos ataques mais destrutivos. Assim como em Samurai Shodown, há golpes que envolvem pressionar duas teclas (soco e chute) simultâneas, no intuito de causar mais estrago. E o melhor é que esses golpes não são specials, ou seja, não drenam nenhuma barra, e já são quase tão apelões quanto eles. Mas para quem sentiu que eu fui indelicado com The King of Fighters ao citar a ausência de especiais acionados quando a life bar chega a danos críticos, há, sim, concessões nesse departamento, para agradar gregos, troianos, senhores feudais, ronins e o que mais houver no século XVI japonês: quem estiver quase morrendo poderá usar desperations ilimitados, o que deixa qualquer um com apenas um fiapo de vida bem longe de condenado!

NM peca devido à falta de elaboração de seu combo system, tosco em comparação com a concorrência da SNK. Há uma ênfase excessiva em correntes e linkers acionados por combinações pré-determinadas e aleatórias de botões. O que mais se acha de parecido com esse sistema são as lutinhas descompromissadas de Mortal Kombat 3. Ao menos os menos habilidosos não poderão se queixar de não conseguirem levar a cabo combos de 7-hit, por exemplo! Mesmo para um veterano, esses “combinhos” são inquebrantáveis, e aí está o problema, na opinião dos experts. Sendo a CPU uma contumaz usuária desse truque barato, você irá preferir disputar rachas com amigos humanos. Outra peculiaridade que não foi bem-recebida à época é a exigência de se elevar a dificuldade para 4 (pelo menos no MVS – vide último parágrafo) a fim de testemunhar as ending sequences de cada personagem.
A ADK é conhecida por caprichar nos detalhes visuais atmosféricos, e o approach de Japão medieval é uma das coisas que ganham o gamer com mais instantaneidade. A despeito dos character models ligeiramente menos robustos do que usuários de Neo Geo estão acostumados, os cenários em volta é que fazem a diferença, positivamente falando. A palavra que vem à mente é “desolação”, até porque a situação do país não poderia pedir palcos suntuosos para lutas tão desesperadas! Cordilheiras cobertas pela neve compõem os fundos ao lado de árvores sagradas e torii (um portão) que desemboca num jardim cheio de corpos empilhados; noutro estágio, as típicas flores de cerejeira tão importantes no folclore japonês revoam pela tela (curiosidade: é desses fantásticos vegetais que advém o nome Sakura, tão comum no Japão quanto Maria seria por aqui!), mas a paisagem se torna mais bucólica devido à existência de uma lagoa quase toda ressecada no período de estiagem. O mais bacana é que conforme os minutos passam a luz solar vai mudando de posição e outras transformações vão acometendo os cenários. Para dar maior charme, não temos locutor, mas locutora! As faixas reproduzidas durante a ação são costumeiramente taciturnas.

Falemos um pouco dos dois lutadores não-selecionáveis, já que já gastamos saliva com os outros 10: Ranmaru, o penúltimo boss, é um cara bem afeminado que usa uma espada bem leve e delgada e não se importa de lutar em meio a cadáveres e a fumaça de pólvora recém-disparada num dos intermináveis campos de batalha dessa era feudal. Mais singular ainda é que Ranmaru executa todos os seus gestos milimetricamente perfeitos de olhos fechados! Nobunaga maneja duas espadas, veste uma armadura negra com capa e habita um palácio dourado (ui, que fashion!). Personagens não-selecionáveis, tem certeza disso? Basta recorrer a um código que eles aparecem no menu. E o mais bacana é que ambos também possuem seus finais particulares. As animações dos golpes são sensacionais, principalmente para Ranmaru, Natsume e Karasu, e é notável a diferença entre golpes comuns e especiais, mesmo que o gesto ou manobra seja idêntico (o salto é mais alto, a magia mais larga, ou então dá para sentir através de algum outro detalhe que o impacto é maior, etc.). Nem as poses de vitória foram esquecidas, e dependendo do life restante no momento da vitória ela será diferente, sem falar que estar ou não empunhando a arma muda radicalmente a postura! Esteticamente, portanto, nada a reclamar de Ninja Masters.

Para desgraça dos colecionadores (ou para sua excitação, vá saber!), a característica mais proeminente de NM é sua raridade e os preços (cada vez mais) exorbitantes pagos por um cartucho AES em boas condições na internet. É sabido que o Neo Geo é um sistema caro por natureza e que muitos jogos de sua biblioteca são difíceis de encontrar, mas Ninja Masters está entre seus superlativos. Cartucho AES é a mídia do Neo Geo padrão. A quem não tem patrimônio de shogun, resta a alternativa do MVS (o cartucho original para Arcade, que passa a ser compatível com o sistema Neo Geo com a ajuda do conversor Phantom-1), que sai de 30 a 40% mais em conta, ou possuir um periférico moderno e usar sua eShop. Sejam quais forem as dificuldades envolvidas em obter o cartucho/CD/DLC, lembre-se: só porque Ninja Masters não está no rol dos superclássicos do Neo Geo, não significa que mereça passar batido!
Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo e um tanto apaixonado pela forma velha de se programar jogos
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