PlayStation



Pepsiman
F I C H A T É C N I C A
Developer Kid Genius
Publisher Kid Genius
Estilo Corrida > A pé
Data de Lançamento 04/03/99 (JP)
NOTA
7.5
Este jogo é pra…
( ) passar longe (X) dar uma jogadinha de leve ( ) dar uma boa jogada ( ) jogar freneticamente ( ) chamar a rua toda pra jogar (X) um tipo específico de jogador. Qual? Odiadores de Coca-Cola; gente com saudade de um Arcade com cronômetro no topo (e o lado bom: sem fichas); fãs de boas risadas; quem por algum motivo nunca pôde jogar Sonic R antes. ( ) incógnita




Solenemente ignoradas pelo mundo ocidental, as Cola Wars (não a cola que cola, mas aquelas bebidas refrigerantes com conteúdo cafeínico!) foram desenroladas nas ruas de Tóquio no final dos 90, se bem que dessa vez sem escombros ou nuvens de cogumelo. Um super-herói emergiu, ajudando a decretar o lado vencedor deste repeteco em menor escala da Guerra Fria. Esse é um campeão como nenhum outro, um matador da sede alheia, um suplantador das necessidades não-vitais de milhões de obesos e sedentários, a alegria, enfim, da massa geek hedonista. Num traje elétrico e fashion misturando o azul e a cor prata, a identidade do herói nos é desconhecida. Talvez ele não tenha um RG, não seja um humano normal por baixo das vestes, e sim uma criatura nascida pós-acidente numa fábrica da Pepsi Co. – tudo que sabemos é que se trata de Pepsiman! Não importa onde, Pepsiman sempre ajudará os necessitados, desde que a ‘necessidade’ seja a de dar uns golinhos calóricos num líquido borbulhante preto, banhar seus estômagos na soda cáustica pura e esperar que suas paredes não dissolvam! Isto é, não importa onde, desde que nas imediações do Pacífico, já que o jogo não ganhou versão ianque, embora muitos dos menus apresentem inscrições no mais entendível e prosaico dos ingleses… Parece que, afora os japoneses, a humanidade não sabe apreciar esquisitices tais! O que mais deixa aquela impressão bizarra é que Pepsi e capitalismo americano são duas coisas que não conseguimos dissociar em nossas mentes… isso até conhecermos esse “clássico B do terrir” de PlayStation!




Nalgum lugar lá fora uma criança chora. Ela precisa urgentemente de glicose e de um gosto gelado vivificante na garganta. Adivinha quem deverá salvá-la, quando a pobre mãe já peregrinou a cidade toda atrás de um mercadinho e só encontrou geladeiras vazias, vazias? Embalado pela música-tema, que aliás só diz seu próprio nome, PEP-SI-MAAN entra em cena. A porta da casa é a primeira a ser quebrada, com um chute bem dado nas dobradiças. O super-herói politicamente incorreto da economia de mercado deixa o presentinho na frente da criatura birrenta e escandalosa. Magicamente, o choro cessa, e o dia está salvo. Pepsiman faz uma pose toda especial, informa que o mundo está em segurança e tenta sua evasiva costumeira, pela janela… mas bate a cabeça horrivelmente na parte de cima do batente. Jesus, essa deve ter doído, só pelo barulho! *insira o slogan da companhia aqui [para quem não sabe, “same great taste”, o mesmo grande gosto]* Por incrível que pareça, nada do narrado aqui tem a ver com o jogo em questão, a não ser o próprio protagonista e o estilo de suas missões: trata-se, em verdade, dum dos famosos comerciais da Pepsi para o público nipônico.




O problema reside justamente aí: à época de lançamento do jogo, os comerciais já tinham uma longa estrada. Como transportar Pepsiman de um veículo para o outro sem uma perda substancial de qualidade? Primeiramente, seria difícil uma aventura interativa com tanto humor quanto as peças publicitárias; em segundo lugar, a chance de enfurecer ou entediar o espectador (potencial consumidor) seria igualmente relevante. A Kid Genius, developer encarregada da missão, tinha uma imensa responsabilidade diante de si. Do ângulo estritamente corporativo, dever-se-ia procurar um jingle pegajoso e buscar inserir a marca Pepsi no máximo de elementos possíveis da gameplay. Ambas as missões foram cumpridas com êxito, já que o tema-título “cantado” (uma palavra apenas) não cessa de tocar jamais, em nenhuma fase, e o nome e as cores e quase que o sabor do produto divulgado podem ser pressentidos pelo jogador a cada esquina poligonal! Mas isso não seria nada se a mecânica fosse uma porcaria. E nem tocamos ainda neste assunto (o fundamental da mecânica). Mas eis que o conceito da KID saiu-se tão surpreendente quanto aceitável: pense em Paperboy ou Space Harrier adaptados à marca pepsiana, e remodelados para as três dimensões, já que são jogos bem antiguinhos. Um corredor nato e pistas cheias de obstáculos: a fórmula para um bom jogo estava pronta!




O mais esdrúxulo é que na abertura você será apresentado ao outro grande personagem afora Pepsiman. Não é sequer um personagem jogável, para ser sincero, mas acompanhará sua jogatina nos intervalos entre as fases em cutscenes birutas, pastelão e hilárias: um típico gringo freqüentador diário do McDonald’s, obeso e brincalhão, que não vê nada de melhor na vida senão umas latinhas geladas de Pepsi acompanhadas de pacotes tamanho família de salgadinho industrial (e não sabemos ainda se é só o tira-gosto ou o almoço em si!). Parece até que estão mangando da cara do gamer, mas e se for isso mesmo? No Japão essa pode ser uma estratégia positiva, que aumente a identificação do potencial comprador com o produto; se saísse nos EUA, certamente acusariam o jogo de fazer apologia do sobrepeso, ou então as ações da Pepsi cairiam do dia para a noite… essas coisas absurdas que sempre acontecem em sociedades carolas demais! É com ele, o gordo orgulhoso de suas banhas, que a apresentação inicia, antes mesmo do menu principal, então é melhor ir se acostumando com o “balofo de meia-idade sem nome”, até porque só nesse review você verá uma dezena de fotos da figura!




Primeiro encargo do herói: uma máquina de refrigerante de um dos lados da cidade ficou completamente despida de Pepsi, então Pepsiman é chamado para resolver a situação. 3…2…1… é dada a largada! Pepsiman não faz nada além de correr. Ou melhor: ocasionalmente ele pode executar uma gracinha, uma pirueta, uma manobra auxiliar ou duas, mas ele nunca pára de se locomover para frente (ou para trás, no sentido da tela, correndo de alguma coisa, nem que seja uma lata de Pepsi gigantesca!) num cenário linear. Essa é a premissa. Você só precisa garantir que o alter ego chegue ao destino final sem se machucar gravemente no caminho… O que isso significa? Basicamente, desviar de bueiros e pedestres chatos, pular de carros velozes na contramão (ou no seu sentido da rodovia), escorregar por baixo de caminhões que passam na perpendicular, e por aí vai. Corra, Lola… ops, corra, PEPSIMAN, corra! Não desacelere (como se você pudesse) nem pestaneje diante da cena inusitada de ter de invadir a sala de estar duma família a fim de progredir na fase, pulando pela janela (sem bater a cabeça, que nem na propaganda) e eventualmente escapulindo pelo jardim, por sobre a cerca da casa! Cuidado com as áreas em obras, pois funcionários de britadeira e guindastes desajeitados podem representar o fracasso da “special delivery” do destemido Homem-Pepsi iFood worker antes do iFood. De repente você está ficando cansado, com vontade de parar, e ainda faltam alguns segundos, então… observe os itens amigáveis espalhados pelo cenário! Pegue uma latinha do seu refrigerante predileto (isso, esse mesmo!) dando bobeira ao ar livre e reenergize seu boneco maratonista: uma can da bebida funciona como turbo. Assim, quem sabe, contando com sua perícia – Pepsiman não pode tocar em nada perigoso uma vez que seja durante a sessão de jogo –, a entrega especial poderá ser completada, você deixa o povo feliz e passa à próxima missão, que pode ser dada por policiais e até pelo exército, ao invés de por humildes sujeitos com macacões da Pepsi – não deixe o sentimento de importância subir à cabeça!
Às vezes a gameplay dá uma variada, só para não vermos Pepsiman o tempo todo a pé e correndo ou andando da mesma forma (é possível desacelerar segurando para trás no direcional + Quadrado, em ocasiões pontuais, quando muita velocidade for sinônimo de imprudência). Seja equilibrando-se em cima de barris que rolam com vontade pela estrada ou dando uma de skatista, o objetivo final de Pepsiman, que é cruzar incólume por todos os perigos do percurso, não muda. E não se espante se para a presente etapa o coitado (do Pepsiman, do jogador, tanto faz) tiver que correr com uma grande lata de lixo enfiada da cabeça até a cintura! O efeito disso na jogabilidade? Os comandos tornam-se invertidos, o que significa que a melhor chance de você prosperar vai ser deixando o joystick de cabeça-pra-baixo!




Pepsiman vai desapontar seus fãs muitas vezes, porque morrer é recorrente no game. Mas mesmo quando completar suas entregas ficará um gostinho de “quero mais”, e acho que ele não vem da tal bebida, não… É que o jogo parece mais uma demo, uma vez que só conta com 4 estágios. Bem, sinceramente, quando toquei no CD pela primeira vez (na casa duma prima), eu esperava bem menos que um título zerável em 2 horas, em se tratando de um jogo de divulgação de marca! Os fins nem sempre justificam os meios (não gostamos que os gamers sejam feitos de otário), mas se era para fazer um jogo com finalidades comerciais digamos que deram uma tacada certeira! Só faltou um pouquinho mais de profundidade, mas as fases são tão bacanas que não é estúpido ou irreal se imaginar voltando às mesmas missões só para soltar mais gargalhadas (você precisa ver as “mortes” do Pepsiman, incluindo fraturas e concussões – muito mais catártico do que se estabacar no Tony Hawk’s!), de preferência no Freeplay mode, que é aberto após finalizar pela primeira vez (na prática, nada muda, a não ser que você agora escolhe a ordem em que percorre as fases). Um toquezinho extra, de brinde, recompensa n. 2 pelos seus esforços primários, é o visual reciclado de Pepsiman, que também aparece em sua encarnação retrô (quem comprava Pepsis há muito, muito tempo vai associar rapidinho a aparência alternativa do herói com a arte das latas de então!).




Brevidade da ação à parte, tecnicamente estamos diante de um jogo típico de última geração do PSOne. Entusiastas dos 32 bits já sabem o que os espera: cenários com cores fortes rodando a 30 frames por segundo, de beleza razoável, isto é, até que se chegue perto demais dos objetos (as pessoas são meros recortes 2D que não combinam em nada com os cenários), sem contar o clipping intermitente, absolutamente padrão no período. Ainda assim, sem chegar perto, graficamente, de um Final Fantasy IX ou Metal Gear Solid, dá de lavada em meio-mundo de títulos mequetrefes da 989 Studios. Ah, e se for muito agoniante a perspectiva de passar horas escutando a mesma música em loop eterno [bem, reza a lenda que, ao menos, é a mesma música em 3 remixes: hip hop, rock e techno, mas eu sinceramente não me lembro de ser assim…], procure emudecer sua televisão… Mas eu diria que o tal tema do Pepsiman é exatamente como seu próprio jogo de PlayStation (que provavelmente não terá nenhuma continuação, haja vista sua natureza absoluta de cult classic), ou seja, simples e repetitivo, mas excitante e divertido.


Acho que engordei uns kilinhos só de contemplar essas imagens!

Será que é assim que se pega o metrô? É que sou novo na cidade!

Sai da frente, seus psi, que atrás vem PEPSI!
Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo (não-praticante) e um tanto apaixonado pela forma velha de se programar jogos
Lista de agradecimentos
HONESTGAMERS:
Michael Scott
GAMEFAQS:
Holysocks
Dino5
geelw
TheIceDragon
maximus86
SplatterNuts
Saikyo Mog
versão 2 – 2013; 2025.




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