PC

Sam & Max Hit The Road
F I C H A T É C N I C A
Developers LucasArts
Publishers LucasArts
Estilo Adventure > Point-and-click
Datas de Lançamento 1993 (EUA, EUR), 1994 (EUA, CD-ROM Version), 23/03/07 (EUR, LucasArts Classic)
NOTA
8.8
Este jogo é pra…
( ) passar longe ( ) dar uma jogadinha de leve (X) dar uma boa jogada ( ) jogar freneticamente ( ) chamar a rua toda pra jogar (X) um tipo específico de jogador. Qual? O fã dos point-and-clicks da época dos disquetes e, aliás, do campeão de todos eles; apreciadores do bonde do nonsense sem freio; quem conheceu Sam & Max em outros formatos (desenhos, quadrinhos) e gostaria de finalmente tomar as rédeas da dupla. ( ) incógnita


Personagens de videogame evoluíram consideravelmente ao longo do tempo. Dos principiantes no parco ramo de jogos eletrônicos sem alma, como o carpinteiro leproso Jumpingman (batizado a posteriori Mario, que saiu do ramo da carpintaria para se dedicar exclusivamente a encanamentos…), chegamos a personalidades desconcertantes e riquíssimas tais quais o esquilo politicamente incorreto e beberrão Conker e o circunspecto Dante, protagonista de Devil May Cry. Fato é que depois de anos apresentando mais e mais criaturas fofinhas, complexas, polêmicas ou então aquelas perversões que só japonês consegue (criancinhas peitudonas, perto de quem Lara Croft não passa de tábua!) quase nenhuma figura conseguiu ser tão carismática quanto Sam -o cão- e Max -o coelho-, do distante 1993…

Numa primeira olhada, parece uma dupla bem típica em mais um mundo cheio de encrencas numa interface point-and-click. Mas é mais que isso. Sam e Max são detetives animais (nada como Ace Ventura, não obstante) numa missão não-menos-ecológica: achar e capturar o Pé-Grande (Bruno) e uma garota com pescoço de girafa (!) – Trixie – a mando de uma dupla de empresários do ramo circense (terceira vez que uso a palavra ramo e ainda estamos no segundo parágrafo do review, hm…). Hit The Road (pegam a estrada) vem bem a calhar como título, já que o que mais se vai fazer é viajar por toda a extensão dos Estados Unidos atrás de pistas para resolver o caso. As locações são todas fictícias, o que acaba sendo uma das vantagens de SMHR.

Resolver o tal caso cabeludo é um simples… caso de usar a cabeça. A cabeça e o senso de humor. As coisas não são exatamente complicadas, mas se a gameplay for um tronco, ela é tão cheia de RAMOS que podem levar os mais organizados a uma barafunda conceitual! Há muitos personagens e itens periféricos para desviar sua atenção do foco e da rotina. Se bem que às vezes é um prazer ficar perdido nas fases de Sam & Max… Na realidade, o inventário é tão abrangente, e os protagonistas são tão malévolos e brincalhões, que Max consta como um ITEM no estoque de Sam, representando uma forma hilária de resolver alguns enigmas!

A terra do hambúrguer – e nada mais…
Sem paralelo em quase nenhum outro Adventure, conversar com qualquer elemento na tela gera uma cadeia sem fim de respostas e interações possíveis. Mas o mais interessante é que esses inputs do jogador não vêm na forma de texto, e sim de imagens, deixando-o desde já imensamente curioso para saber qual vai ser a reação de seus dois protagonistas quando clicar sobre o ícone desejado. Ao passo que em tese apenas Sam, o mais ponderado da dupla, é controlado, Max vai tomar as rédeas em muitas situações, incrementando o tempero de lunatismo da trama. Olhe os dentes triangulares e o olhar de louco do coelhinho e tente imaginar o perfil psicológico (psicótico!) da cria!

O nada-mundano – mas ainda assim familiar, para esclarecidos do gênero – leque de puzzles pode ser deixado de lado para se encarar uma miríade de minigames bem pensados pelos developers. O whack-a-rat (whack-a-mole com ratos de verdade no lugar de marmotas de plástico) é compulsório; por seu turno, batalha naval (com carros no lugar de navios, err…), “Dress S&M” e “Colouring” são brincadeiras opcionais para destrinchar por quanto tempo quiser. É isso mesmo: colorir os personagens e cenários e vestir os heróis dos trajes mais estúpidos e ridículos possíveis consistem em gameplays à parte, provavelmente mais indicadas para baixinhos. Mas eu não esgotei aqui os minigames, e os adultos se divertirão um tanto com “Road Rage”, em que Max fica no topo do carro enquanto Sam dirige a toda velocidade pela rodovia, tentando desviar do máximo número de placas… Desafiante para os descoordenados!

O que mais encanta no jogo não são, entretanto, os mini-jogos nem os quebra-cabeças. É a atmosfera nonsense da produção, o bocado de entusiasmo colocado na caracterização. Por isso gastei um parágrafo inteiro nesse assunto. Uma coisa que contribui para o clima de irreverência e estranheza é que Sam e Max são casos únicos e peculiares (tirante o Big-foot, mas ele nem aparece até os créditos!) de animais “antropomórficos” nesta realidade ficcional. Todos os outros personagens dialogáveis são seres humanos “normais” (sempre bem estilizados, é claro), mas ninguém questiona o fato de um coelho e um cachorro estarem à frente das investigações do paradeiro de duas atrações do circo-zoológico!

Normalmente as duplas – ainda mais as satíricas – se prestam a uma infinidade de estereótipos que tornam-nas cansativas a nossos olhos, a longo prazo (Batman & Robin, O Gordo & O Magro, etc., etc.). Porém, não é o que acontece com os versáteis e densos Sam e Max, Max e Sam! Nenhum deles é estúpido ou idiota. O cachorro é majoritariamente calmo e discreto, mas basta um acontecimento inesperado para vê-lo perder as estribeiras ou (tentar) agir como os amados policiais dos filmes de ação americano. Seus destemperos excepcionais podem ser medidos pela boca suja – as ofensas engraçadíssimas – e seus estados de choque. Max é o tipo frenético hiperativo sacanão que mais parece uma criança (só que com mais vivência) sem ninguém que possa botá-lo de castigo. Cheio de sarcasmo e tão perspicaz quanto Sam, ele só vai ser um pouco mais pidão com coisas como “nossa, estou apertado, preciso mesmo ir ao banheiro!” ou mais propenso a entrar em brigas sem pensar nas conseqüências. Ambos parecem implicar demais um com o outro, mas não a ponto de estragar uma sincera amizade. De fato, aqui está um retrato de amizade gamística que mega-produções mais recentes não conseguiriam emular nem de longe: Jak & Daxter não soam tão convincentes como companheiros inseparáveis! E as vozes e as animações contidas no jogo são impressionantemente harmônicas com esse estado (louco) das coisas.

Depois dos próprios personagens principais, o outro grande motivo para jogar Sam & Max Hit The Road consiste nas infames paródias do estilo de vida americano. Há muito material, muita bobagem, muita tiração de sarro e tantas coisas que fariam o melhor programa humorístico da TV parecer insípido e comportado demais que mal podemos acreditar que são, em média, menos de 10 horas de jogo para concluir a saga! Uma das sub-estórias apresenta “o maior novelo de lã do planeta Terra”. Com efeito, ele é tão grande que tem até hotel, museu e restaurante dentro dele, e no restaurante vive um entortador de talhares no melhor estilo Uri Geller. Outra boa sacada se refere às incursões pelos besteiróis de seriados sci-fi ianques. No Mystery Vortex nossos heróis vêem água pingando do chão para o teto e até aumentam e diminuem de tamanho a cada passo por causa de um estranho “magnetismo”. Mas mesmo nesse mundo tão “ácido-lisergiquizado” há quem não veja ou sinta a menor graça: dê uma olhada na cara de tédio da caixa-registradora do gift shop (que será bastante acessado pelo gamer)! As atrações turísticas baratas com cheiro de engodo seguem no ritmo de bungee-jumps feitos do nariz de presidentes da república e um show do cantor country Bumpus, na casa de quem até aquelas cabeças de veado empaladas das paredes têm o que dizer! Para quem já estava esperando o relato de algum chiste de Guerra nas Estrelas, uma vez que a produtora é a LucasArts, sim, tem isso também, mas não é nenhuma reprise em novos (e desajeitados) moldes daquela velha cena/piada “I AM YOUR FATHER!”, e sim um insight fenomenal de verdade, do qual não farei o spoil!

Enquanto que a jogabilidade dificilmente será considerada revolucionária de acordo com qualquer prisma, o que conta aqui são a apresentação e o envolvimento proposto, sem iguais. Sam & Max andaram ganhando algumas continuações e revivals nos anos 2000, mas acredite em mim: este primeiro é ainda hoje o melhor episódio da dupla que você jamais conseguirá encontrar!


Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo não-praticante e um tanto apaixonado pela forma velha de se programar jogos
Lista de agradecimentos
GameFAQs:
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Saikyo Mog
versão 2 – 2013; 2025.
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