
REVIEW N° 1083 DO NEWGEN
Por Rafael “Cila” Aguiar
Genesis (Mega Drive)
+ Game Gear, Master System, PC & Wii.





Dynamite Headdy
| F I C H A T É C N I C A |
Developers Treasure / Sega (PC) / Minato Giken (GG/MS)
Publishers Sega / Tec Toy (MS/GEN-BR)
Estilos Plataforma 2D / Side-scrolling Shooter > Nonsense
Datas de Lançamento
GEN
04/08/94 (AUS-BR-EUA-EUR) / 05/08/94 (JP) / 24/07/07 (JP-Virtual Console) / 30/07/07 (EUA-Virtual Console) / 03/08/07 (EUR-Virtual Console)
GG
05/08/94 (EUA-EUR-JP)
MS
1994 (BR)
PC
02/05/12 (EUA-Steam)
Incluído nas coletâneas:
Sega Ages 2500 Series Vol. 25: Gunstar Heroes Treasure Box (PS2)
Sega Classics (Amazon Fire TV)
SEGA Genesis Mini (hardware)
Sonic’s Ultimate Genesis Collection (PS3/X360)
| NOTAS (Este escore é uma média dos principais portais de games na web e revistas antigas quando for o caso, e também engloba a opinião dos gamers visitantes, além da crítica especializada; não necessariamente reflete meu ponto de vista.) |
GEN
8.5
GG
6.5
MS
5.5
PC
8.2
| E S T E J O G O É P R A . . . | |
| ( ) passar longe | (X) dar uma jogadinha de leve |
| (X) dar uma boa jogada | ( ) jogar freneticamente |
| ( ) chamar a rua toda pra jogar | ( ) uma incógnita |
| (X) um tipo específico de jogador Quem… gosta de usar a cabeça (ho-ho-ho!) | Quem jogar este também poderá gostar de: Bubsy (GEN/SNES) DecapAttack (GEN) McDonald’s Treasure Land Adventure (GEN) Mischief Makers (N64) Rayman (JAG/PC/PS/SAT) Viewtful Joe (GC/PS2) |
| FAIXA DE VIDA ÚTIL ESTIMADA |
2 a 10h
Não julgue uma obra pela capa: Dynamite Headdy (DH) é muito melhor por dentro do que sua artwork esquisitona tenta demonstrar. Um usuário de Mega Drive, afinal de contas, precisa explorar novos meandros, por mais que Sonic 2 ainda seja o cartucho-destaque na prateleira…
Desenvolvido pela Treasure, renomada pelo seu grande sucesso 16-bit Gunstar Heroes, DH (como a própria companhia, de modo geral) fez história sem fazer história, se é que me entendem, e se tornou um CLÁSSICO ILUSTRE DESCONHECIDO do console (e a Treasure, por sua vez, merecia ser muito mais reconhecida do que é). Platform games como Mario e Sonic podem ter pavimentado o caminho para as outras softhouses no gênero, impulsionando o nascimento de franquias inéditas nas novas gerações, mas reconheçamos: 95% da coisa não passam de jogos genéricos, que nos seriam indiferentes se fossem formatados da História ou jogados por milhões: muitos Plataforma nada acrescentam ao mundo tal qual é. Mas Dynamite Headdy está em meio aos 5% restantes: sem se ancorar no nome ou no hype, demonstrou ter vida e personalidade próprias.

Mas a verdade nua e crua da ótica do mercado é que Dynamite Headdy é o que veio no lugar de um Gunstar Heroes 2, e o público – magoado – pode ter inconscientemente desprezado esta obra-prima dos Plataforma única e exclusivamente por essa caprichosa razão! Tendo surgido menos de 12 meses depois do estrondoso sucesso de GH, shooter no melhor estilo Contra, DH (putz, até as iniciais são parecidas!) teve o infortúnio de ser o game certo na hora errada: o parâmetro de comparação é por demais injusto. Se DH fosse apenas um título genérico, talvez ainda estivesse na mais sombria das obscuridades, não sendo lembrado nem pelo mais indie dos retro gamers! A questão é que, se não fosse para obedecer ao imperativo da “continuação de Gunstar”, uma solução satisfatória só poderia vir sob a forma de algo que abolisse qualquer traço de clichê; e conseguiram: GH e DH são como meios-irmãos de pais diferentes, relativamente incomparáveis. Ou ainda melhor: seria como julgar a carreira de cineasta de Orson Welles sem levar Cidadão Kane em conta (ou levando apenas Cidadão Kane em conta, o que dá no mesmo: o cara dirigiu uma dúzia de ótimos longas, pô!). Resumo da ópera: a galera queria mais um Gunstar Heroes; os programadores da Treasure só queriam trabalhar em algo que gostariam, eles mesmos, de consumir também, no tempo livre… Capitalismo, como eu te odeio!

GAMEPLAY
O protagonista se chama Headdy, e é basicamente um fantoche com uma cabeça desproporcional e destacada do corpo (muito antes de Rayman!), manipulável a seu bel prazer. O conceito é tão rico quanto fácil de explicar: esta habilidade sui generis de jogar sua própria cabeça para longe servirá como ataque, coletor de itens, elevador para alcançar plataformas ou acionar alavancas, etc. Com aparições pontuais como NPC também temos o amigável Headcase, que oferecerá power-ups encefálicos! Não há nada que Headdy não possa usar a cabeça para aprender a fazer (hehe)… Virar aspirador de pó para sugar todos os inimigos da tela, um martelo de aço gigante, uma cabeça de porco que dispara projéteis letais pelas narinas e até uma cabeça dorminhoca que pode dar o ar da graça quando menos indicado estão entre os superpoderes adquiríveis pelas mãos de Headcase (sem trocadilhos intencionais com partes do corpo, irmão!). São muitas e muitas cabeças, então não espere que eu dê todas como prêmio ao leitor: fiquei apenas na mais superficial das introduções…
Só pelo jeitão inovador, este já é um 2D com alma de sobra, com um “algo a mais” que os pulos do Mario por baixo dos blocos e os spins do Sonic já não oferecem in this day and age… Mas o “head system” não só abre vastas possibilidades para a gameplay como é implementado com luxo e garbo, potencializando a mística em torno do título: um dos níveis alterna entre perspectivas bi e tridimensionais; outro obriga Headdy literalmente a flutuar por uma espécie de labirinto da morte em pleno céu; outro faz tudo girar de ponta-cabeça e de volta ao normal, etc. O verdadeiro cerne de um Plataforma competente é o level design, e Dynamite Headdy é uma obra-prima no quesito.

Tem até área de treinamento, pra ir se acostumando com os controles (não que eles sejam difíceis, apenas inusitados): Headdy visitará uma cidadezinha cujos habitantes são uns mais estranhos que os outros (como se você, o cabeça-solta, pudesse dizer alguma coisa…). A principal técnica treinável é o tiro-ao-alvo; tem também o uso de um item chamado Hangman e explicações verbais de quantas cabeças existem no jogo e o que cada tipo faz. Hangmen, no plural, são rostinhos felizes (vovôs dos emoticons?), nada mais que ícones especiais para transportá-lo a áreas-bônus doutra feita inacessíveis (pense num Yoshi de quem você pode ejetar sem, no entanto, perdê-lo, como aconteceria em Mario World, ou então na corda ninja de Worms). Voltando ao tiro-ao-alvo, o primeiro treinamento citado, quem o introduz e nele o instrui é uma espécie de fada-macho chamado Beau (Belo em francês), sujeitinho que também contará os pontos fracos dos chefões e outros inimigos importantes. Confesso que as missões do training são chatinhas se comparadas à divertida gameplay das fases normais, mas este é sem dúvida um modo de jogo que facilita as coisas para os newcomers.
Outra coisa de que gostei muito na fórmula: cair em precipícios não mata o jogador – ele é devolvido à beira do buraco onde caiu com um hit point a menos. Mas, ainda com esse refresco, não mentirei para você: DH é DIFÍCIL! Os primeiros estágios (até a Sala Verde) são relativamente lineares. A partir daí, nada garanto! Sobre confrontos com chefes, provavelmente o mais problemático será Motor Hand, no final de Stair Wars (Guerra nas Escadas, hehehe).

Cada fase termina com o somatório dos stage points, time points e, mais bacanas ainda, os secret points. Mesmo sem ser completista tarado ou hi-scorer nato, esse cômputo numérico será o suficiente para manter o grude dos mais aficionados pela fita, mesmo após esse pessoal ter visto a zeração. Isso porque conquistar mais pontos não é obrigatório, bastando chegar ao final de cada fase; mas uma vez que o objetivo principal já foi completado, resta esse extra bem interessante. Os pontos “secretos” exigem ações especiais durante os estágios. Existem 39 escondidos no jogo. Normalmente, mas nem sempre, trata-se de destruir um adorno da decoração dos cenários ou um inimigo especialmente resistente (mais em questão de só morrer de um jeito criativo que o gamer precisa descobrir do que por ser forte em si mesmo).

GRÁFICOS
Não é difícil constatar pelas imagens que toda a ação transcorre simulando um palco de teatro; mais exatamente um teatrinho de marionetes. E cada fase é um ato da peça, que é o jogo! Essa singela arte visual permite um sem-número de achados técnicos e colírios para os olhos. Algumas vezes aparecerão bonecos trabalhando no fundo, como se estivessem terminando de montar o cenário com atraso, um ou outro suporte de cenário derrubado, desmontado ou despedaçado (sem contar que dá para interagir com quase tudo); até os fundos de tela são literalmente telas, isto é, muitas vezes apenas um muro com um céu laboriosamente pintado para representar o verdadeiro céu… uma coisa bem platônica (uma imagem de uma imagem de uma imagem!), porém eu digressiono… Fato é que tudo isso é um enxerto na experiência inigualável que é jogar Dynamite Headdy. Muita coisa acontece na tela, mas, em qualquer versão, slowdowns não são sequer detectáveis!

O character design dos chefes é mais um aspecto delicioso dessa trama de títeres, o que vai fazer os mais entusiasmados lembrarem a série clássica do Mega Man.
DH para Mega Drive é um dos mais bonitos do inventário do aparelho, mas o mesmo não pode ser dito das versões 8 bits (Game Gear e Master System). Nada execrável, mas também nada que se compare ao resultado obtido no hardware de origem. A animação, por outro lado, é fluida o suficiente até nos consoles menos poderosos.

A versão para a Steam ficou ainda mais bem-definida
SOM
Minhas faixas prediletas incluem The Rocket Tier, Troubles Bruins e Terminate Her Too (caso ainda não tenha percebido, quase tudo aqui é paródia de sucessos do cinema). Falando em “reciclar velhos conceitos”, tem até uma versão MIDI da Marcha do Quebra-Nozes do Tchaikovsky!¹. Será complicado tirar as faixas de abertura e de batalha da cabeça.
¹ Essa suite também é utilizada em Yoshi’s Story (N64).

ORGULHO NACIONAL COM “EMBALAGEM GRINGA”
Se a versão Genesis já é um cult classic, ou talvez tão desconhecido que seja apenas um “cult game”, sem o “classic”, embora bem o merecesse (injustiças do destino…), o cartuchinho de Master System é simplesmente um achado, um item de colecionador: um dos títulos mais raros da biblioteca do aparelho, esse port direto do irmão mais novo (coisa não muito infreqüente durante o ciclo de vida do MS) se tornou ainda mais lendário e especial para nós por ter sido lançado oficialmente apenas no Brasil, o que não nos livra de desconfiar que seu lançamento nos States fôra cancelado apenas de última hora, uma vez que os menus estão todos em inglês e os créditos só mostram ianques na produção. Mais uma vez os méritos vão para a Tec Toy, que como boa representante nacional da Sega que era bancou os custos da importação! Como resultado deste cancelamento insólito na terra do Tio Sam, a gringada que se interessa por jogar esta versão “down-tuned” acaba optando pela conversão de Game Gear, mais em conta. As duas são substancialmente idênticas, por sinal.

Outra diferença nítida da conversão (além da palpável limitação técnica) são os padrões mais simplórios de movimentação dos chefões (e a Treasure adora abarrotar os níveis de chefões e sub-chefões…). Curiosamente, os bosses mais complicados do Genesis são mel na chupeta no Master e vice-versa. Vai entender! Os gráficos mostraram seus mundanos limites na hora de retratar a chefe de fase Spinderella, que devido a efeitos avançados tinha um visual pseudo-poligonal em seus sprites 16 bits, o que não podia nem de longe ser replicado pelo Master. Para compensar essas perdas – imagino –, os programadores aumentaram o HP de vários dos chefões e de alguns adversários que são um pé-no-saco, mas isso não aumenta o desafio, porque os padrões de movimentação são fáceis de desvendar. As zonas de jogo (cada pedaço da fase) ficaram muito mais curtas (algumas levam menos de um minuto para serem atravessadas), e até a tela de jogo ficou menor, com a inserção bizarra de dois pilares nas laterais, o que não aumenta a dificuldade e só piora o fiasco dos gráficos. As últimas fases foram completamente cortadas por falta de espaço no cartucho. Não seria exagero, portanto, chamar o Dynamite Headdy de MS de Boss Rush: UNspecial Edition!

MASTER SYSTEM
Outro corte que desanima mais um pouquinho: não há mais customização do nível de dificuldade (se bem que até o easy é difícil no Genesis, é bom lembrar…). Porém, resta aquele gostinho de “exclusividade brasileira”, no final!
CONCLUSÃO
Dynamite Headdy é basicamente “o Viewtiful Joe da sua geração”. Todo aquele que não faz idéia da doideira deste universo conceitual precisa experimentar. Quem liga para uma continuação de Gunstar Heroes quando se pode jogar Dynamite Headdy no lugar?

GAME GEAR
CURIOSIDADE 1: O jogo foi lançado para Wii (como você viu no cabeçalho) em julho de 2007, no PC (Steam) em maio de 2012, para iPad/iPhone em 18/04/18, Android em 08/05/18 e PC (Linux e Macintosh) em 29/05/18. E tem até uma versão de Super NES que foi abortada ainda em fase inicial de produção… Impressionantemente o bastante, isso não parece ter reduzido em nada sua obscuridade!
CURIOSIDADE 2: Existe um patch amador circulando pela internet com uma tradução na íntegra da versão japonesa (cujo enredo, sabe-se lá por que razão, foi reduzido para os jogadores do Mega ocidentais, e outra vez reduzido no port para Master!), dum nível que não deve nada a localizações profissionais! Até o fim do jogo fica um pouco diferente (mais um incentivo para veteranos babões reembarcarem nessa jornada!). Outras diferenças da versão japonesa: o que para nós são dois chefes robóticos eram mulheres por lá. E a paleta de cores também sofreu modificações. DH foi, ainda, apimentado ao chegar à América: chefes possuem o dobro do life meter e o jogador não dispõe de nenhum continue (isto é, de início, podendo coletá-los ao longo do caminho sob a forma de itens, se for esperto), ao contrário dos 2 recebidos de lambuja na versão nipo.

Lista de agradecimentos pela cessão de informações e imagens
DEFUNCTGAMES.COM:
Cyril Lachel
GAMEFAQS:
charbert42000
dynamite spoony
Goodbye Galaxy
SuperYoshi
TMola
uffbulle
JEUXVIDEO.COM:
OldSchoolBobby
MOBYGAMES:
Emperor MAR
RKL
NINTENDOLIFE.COM:
Damien McFerran
SEGA-16.COM:
David Wilson
SMSTRIBUTES.CO.UK:
Alexander Landgren
versão 2 – 2019; 2025.
® 2002-2025 0ldbutg8ld / RAFAZARDLY!
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