metal gear solid 4: guns of the patriots (ps3)

Por Rafael de Araújo Aguiar

PlayStation3

Metal Gear Solid 4:

Guns of the Patriots

F I C H A    T É C N I C A

Developer Kojima Productions

Publisher Konami

Estilo Ação

Datas de Lançamento 12/06/08 (mundial), 13/03/09 (EUR, OCE, Platinum), 28/05/09 (Ásia, COR, PlayStation3 The Best), 16/06/09 (EUA, Greatest Hits), 18/06/09 (JP, PlayStation3 The Best), 14/12/12 (EUR, 25th Anniversary Edition), 20/12/12 (OCE, 25th Anniversary), 2014 (BR, Favoritos)

NOTA

9.1

Este jogo é pra…

(  ) passar longe  (  ) dar uma jogadinha de leve  (  ) dar uma boa jogada  (X) jogar freneticamente  (X) chamar a rua toda pra jogar  (X) um tipo específico de jogador. Qual? Aquele mais refinado, que não joga videogame só para “apertar teclas” e que acredita que games podem ser considerados uma forma de arte…  (  ) incógnita

MGS4: Armas dos Patriotas é o masterpiece, ou a culminância, da tendência de mistura de roteiro jogável e jogo narrado. O correto seria se referir a este (suposto) epílogo de Metal Gear como a coqueluche do gênero “roteiro + jogo”, mas os dois elementos se mesclam tão naturalmente que seria burrice tentar desqualificá-lo como “BluRay de filme” ou “joguinho com muitas cenas”. Não é só isso. Está um nível além do que a indústria pôde oferecer até agora, ou até o ano de 2008, pelo menos. Tanto é que receei classificá-lo como Third-Person Shooter. Primeiro porque há modos de visão em primeira pessoa, segundo porque ele não é “tiro” o tempo inteiro. Preferi o rótulo mais abrangente “Ação”. Ainda assim, reconheço que é uma palavra, a despeito de genérica, limitada para condensar lexicamente os esforços estrondosos da Konami.

Metal Gear Mk. II, ao seu dispor

Metade da experiência com Metal Gear Solid é vivida assistindo ao invés de controlando. Não se trata de ser chato, mas de envolver o gamer o máximo no papel de Solid Snake, um “Rambo mais cerebral” e coroa, às portas da aposentadoria. Deve ser dito que as cutscenes são renderizadas em tempo real, dentro da estrutura gráfica do próprio jogo. Não há diferença entre os gráficos das fases, que contam com sua participação, e os diálogos e revelações estonteantes nos interlúdios. As cenas não são pré-renderizadas. A princípio, pensar-se-ia que isso significa imagens de menor qualidade para se assistir. Mas com MGS4 talvez a impressão seja outra: joga-se um filme, isto é, os gráficos in-game são perfeitos (como veremos mais abaixo, isso tem seu – pequeno – preço)! Não abandone o controle a 2 metros de si, porque uma cena pode desembocar em um take de ação frenética sem aviso prévio, deixando para o jogador o trabalho pesado (que é, afinal, o que ele queria). Essa transição brusca (mas natural) é justamente o porquê de termos dito que se trata de uma fusão, e não um pacote que traga separadamente “blá-blá-blás + tiros e mortes que dependam da habilidade do jogador”. Acredite, é uma espécie de revolução no desenvolvimento de jogos eletrônicos! E foi o jeito que encontraram para fechar a fumegante carreira de Snake, que vem desde a era 2D, em alto nível.

Você vai perder a mão!

Infelizmente contar o enredo do título seria incorrer em imperdoável spoiling. Este review não nutre uma tão cruel ambição! O que podemos fazer é dar um prólogo estilo verso-da-caixa: Snake, sofrendo pela inclemência do tempo que abate e endurece a carne e vai nos deixando cada dia mais senis, deve lidar com juntas retesadas e alguns fantasmas remanescentes do passado, porém num contexto bem real e novamente ameaçador. Liquid Ocelot arma mais um grande plano e você está no time encarregado de pará-lo. Chefes formidáveis, na flor da juventude e no auge da forma, encararão um Snake de corpo deteriorado e que se cansa mais rápido; mas se a experiência não contasse, o game sequer teria saído das linhas de produção! O que dissipa a tensão é que o jogador é que definirá a sorte: nada de sofrer passivamente em frente à LCD… Reuniões sangrentas, melancólicas, chocantes e até satíricas não faltarão, mas o melodrama é predominante sobre situações de sarro e comédia, embora elas existam (talvez algumas piadas tenham saído sem timing mas, como não são muitas, podem até passar batido, sem feder nem cheirar).

A mecânica soará familiar, embora tenha sido reformulada e expandida, guardando tantas surpresas quanto a plot. Não há priorização de algum aspecto em específico: tiroteios de longe, porrada mano-a-mano e táticas para permanecer oculto e à espreita são todos muito divertidos. De mais a mais, no quarto episódio canônico da franquia Metal Gear em seus tempos de “solidez tridimensional”, Snake é muito mais jeitoso (serão os fios brancos?) para agarrar inimigos ou meter a navalha na garganta vindo por trás, despercebido. O sistema de mira também parece estar bem mais fluido. Há tantas armas para escolher que é razoável pensar no seguinte cenário: chegar ao fim da aventura e não ter, ainda, testado todas elas. Aqui, quantidade não significa falta de qualidade: o design de cada item foi elaborado com o máximo de esmero; pelo menos não vemos coisa melhor nos jogos da concorrência. A operator sidearm (com ou sem silenciador), assault rifles e as powerful railguns serão algumas das mais usadas. A visão típica é aquela sobre os ombros do protagonista, mas para alguns momentos alterná-la não calhará mal. As miras de lasers e das armas de franco-atirador serão úteis também por esse lado: dotar o jogador de um terceiro olho.

Rastejar, arrastar-se por paredes, espiar esquinas e qualquer procedimento típico do mundo da espionagem estão no repertório de movimentos de Snake (por que você acha que ele recebeu esse codinome?). É simplesmente mais inteligente evitar fogo contra fogo se você pode fazer o serviço na surdina – dizem por aí que agentes precavidos vivem mais tempo! No geral, pode-se dizer que finalizar Solid 4 está mais fácil do que finalizar os Solid 3, 2 ou 1, porque os comandos foram aperfeiçoados, e não porque as fases estejam de alguma forma ridículas. A OctoCamo é uma vestimenta de camuflagem especial que se adéqua a qualquer textura de fundo quando o personagem está encurralado, sem cobertura e não conta com outra solução a curto prazo. Outro cacareco que não fere mas que auxilia e muito é o Solid Eye, ferramenta com um radar sônico acoplado que poderá “ver além do alcance”, em forma de ondas no display (basta lembrar que para uma formiga, por exemplo, o ruído que passos humanos provocam, mesmo que se trate de balé ou de um ladrão na calada da noite, deve parecer o de grandes explosões!). Há ainda a possibilidade de ligar a visão noturna, em último caso. Prepare-se para boss fights nostálgicas em meio a borrascas em que a única forma de prever o ataque alheio é usando o olho sólido!

INfame

Esconderijos portáteis fazem parte do cinto de utilidades de qualquer infiltrante em bases inimigas, sendo aqueles: a) caixas de papelão que não despertariam a menor suspeita (mas não abuse!); b) ou barris enferrujados! Um companheiro eletrônico, outrossim, não vai mal: Metal Gear Mk. II é o nome da criança. Como a sigla “Mk” prenuncia, trata-se de algo mortal para os adversários (veja no parágrafo abaixo, que fala do multiplayer). Como em todo jogo, alguns recursos são infelizes ou gratuitos, supérfluos. Por que Snake usaria um Apple iPod™ em meio a uma missão de vida ou morte? Está feita a publicidade…

Os únicos níveis que realmente forçam o jogador a permanecer num gênero específico de jogo durante toda sua duração são alguns dos mais interessantes já bolados para PS3 ou qualquer outra máquina: uma perseguição (oculta) a uma pessoa por vielas escuras do Leste Europeu e uma outra bem mais radical, sobre motos. O impacto provocado no jogador e o suspense sobre o que acontecerá nos próximos metros e segundos de tráfego são legitimamente cinematográficos, dada a velocidade e a minúcia empregadas.

Snake não tem apenas um medidor de vida/saúde (que, afinal, é o prioritário): há ainda um detector de stress, em porcentagem, no canto esquerdo superior da tela. A cabeça de um guerrilheiro veterano pode já não estar agüentando a pressão e o risco demandados nessa profissão de gente jovem, que ou sofre baixas ou é logo reciclada porque apareceram outros mais capazes. Em situações como frio intenso ou encurralamento, seu psicológico começa a ratear. Mas obviamente isso poderá evoluir para intensos reflexos no físico, dependendo da gravidade e do teor do estresse. Snake começa a se locomover mais lentamente, carrega a arma com dificuldade (no sentido de reabastecer a munição, num primeiro momento), ou até mesmo fica impossibilitado de efetuar qualquer tipo de locomoção ou de segurar, de fato, a arma, se o stress atingir níveis críticos. Essa característica não é nem de longe freqüente, e muitos gamers não se preocuparão ou esquecerão a existência do medidor até que Snake comece a gemer e suar bastante, o que é um mau sinal. Muitas vezes, itens como compressas resolverão parcial ou integralmente o problema.

Não adianta: se você não tem paciência para prestigiar as cutscenes entre as fases contando a estória, não é por ser um jogaço nos aspectos técnicos que você irá aprovar o produto. O mesmo se diz para qualquer Metal Gear desde os 32 bits…

A inteligência artificial dos oponentes é elevada. Assim como o gamer poderá se proteger atrás de objetos e paredes à vontade, essa será a tática de ordem entre eles. Não apenas isso, mas arremessarão granadas precisamente no sítio que o jogador ocupa, forçando-o a sair do esconderijo e ficar à mercê da pontaria dos que estiverem no cômodo ou na zona de tiro (já que há estágios a céu aberto e dentro de construções). Os Gekkos, máquinas exterminadoras gigantes, são imprevisíveis e irritarão os jogadores mais afoitos; as mulheres da equipe adversária costumam ser muito mais ágeis do que fortes e pulam de parede em parede buscando desviar de suas investidas e se tornar um alvo caótico.

De novo tocando no assunto “chefões”, estas lutas são etapas estimulantes do jogo, embora não sejam um pesadelo em si. Não adianta pura cafajestagem, no estilo “rajadas de tiro impensadas para todos os cantos”. O esquema é detectar o ponto fraco do inimigo, o que pode não estar muito claro na primeira tentativa. Quatro dos chefes são membros da unidade A Bela & A Fera – super-soldadas bacanas de serem desafiadas. As batalhas costumam ser a longo prazo e conter mais de um alvo, seja em ataques simultâneos ou individuais. Pode ser que o jogador tenha que contar com detalhes como a direção do vento para levar vantagem, então toda atenção é pouca! Uma estranha companhia nessas horas de tensão um pouco agravada será a das risadas e gritos insanos de alguns chefes (o referido toque nostálgico dos desenvolvedores)…

David Hayter é o nome do quase-barítono profissional que dublou Solid Snake mais uma vez!

Como se não bastasse o single player matador (literalmente), MGS4:GoTP oferece ao proprietário diversão online para ele e mais 15 num mesmo ambiente. Citamos de cara a obviedade do gênero tiro em pessoa: Deathmatch e Team Deathmatch. Mas por serem inclusões óbvias não quer dizer que não sejam altamente recomendáveis e bem-feitas. A melhor parte, pelo menos segundo o juízo de muitos dos jogadores, é o sneaking mode, sub-modalidade do TD. Um dos gamers atua como Snake, outro como Metal Gear Mk II (já descrevi por alto a “criatura”, mas pense num R2D2 muito mais violento!). O “assistente” pode simplesmente ficar invisível, aterrorizar adversários com seu tentáculo eletrônico ou de “n” outras formas. Muitas outras opções compõem o multiplayer: hide & seek (pique-esconde), base mission, capture and defend e rescue mission (exatamente a mesma coisa de MGS3: Subsistence). O processo de criar uma conta para poder disputar as partidas é laborioso, então não estranhe perder muitos minutos enviando uma litania de informações (o que se torna especialmente tragicômico para quem não usufrui de um teclado!). Porém, assim como especificaremos no parágrafo abaixo, pequenos contratempos, no single ou no multiplayer, saem barato tendo-se em conta o que o consumidor recebe em troca. Ninguém poderá se queixar de pouca variedade na versão para internet de Metal Gear Solid 4.

O preço que o usuário do PlayStation3 paga por essa maravilha tecnológica, em que som e imagem trabalham sempre a seu favor (o trabalho de dublagem, sobretudo o do protagonista, é magnífico), é que alguns menus de instalação devem ser abertos, e tudo que o jogador pode fazer enquanto ela progride é esperar. Isso é de praxe em alguns games que requerem um pouco mais do hardware da Sony, no entanto não chega a gerar aborrecimentos, já que ocorre em diferentes partes da trama, bem espaçadas entre si, e consome cerca de 20 minutos (somadas todas as instalações). É uma troca justa: um pouco de tempo por kilotons de recursos!

Se a vida é um conto cheio de som e fúria contado por um louco ou idiota, como diz Shakespeare, sem juízo de valor, aparentemente, saiba que a vida é bela. De uma beleza estranha, porém inquestionável! Metal Gear Solid 4 é uma metáfora (mais agitada e barulhenta do que o normal, mas ainda assim uma metáfora) dessa tal vida!

Agradecimentos a Kevin VanOrd

versão 3 – 2012; 2013; 2024.

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