Por Rafael de Araújo Aguiar
Saturn

Shinobi Legions
Shin Shinobi Den (Japão)
Shinobi X (Europa)
F I C H A T É C N I C A
Developer TOSE
Publishers Sega, Vic Tokai (EUA), Tec Toy
Estilo Ação > Beat ‘em up
Datas de Lançamento 30/06/95 (JP), ??/95 (EUA/BR), 1996 (EUR)
NOTA
7.5
Este jogo é pra…
( ) passar longe ( ) dar uma jogadinha de leve (X) dar uma boa jogada ( ) jogar freneticamente ( ) chamar a rua toda pra jogar ( ) um tipo específico de jogador. Qual? ______ ( ) incógnita
Incesto e fratricídio? São as primeiras coisas em que se pensa quando se começa a aventurar em Shinobi Legiões, um dos primeiros títulos de Sega Saturno, continuando uma franquia vitoriosa. Vitoriosa porque a protagonista é uma família de guerreiros muito decente. A profusão de sistemas que foi palco de pancadaria com honra e encenações de vingança é quase inenarrável. Tudo começou com o clássico de Arcade da Sega de 1987, homônimo (Shinobi). Críticos tendem a afirmar (talvez até de forma exagerada) que este game reinventou o gênero Ação. Se não reinventou – e eu acho que não, pois muita gente nunca ouviu falar dele –, tanto pior para o gênero! Por uma seqüência de infelicidades, o primeiro videogame caseiro que teve uma conversão digna do fliperama foi o Turbografx-16/PC Engine, cujos donos brasileiros quase podemos contar nos dedos. Os outros periféricos que receberam o título rodavam a saga do ninja em condições bem inferiores, o que não fazia justiça ao clã Shinobi: Commodore 64, Master System e NES (Shinobi num console Nintendo? Uau!). Mas seria melhor que os antigos usuários dessas plataformas não pudessem dizer: “Meu videogame tinha um Shinobi!” – principalmente no caso do Nintendinho, já que a adaptação ficou ATROZ.
O tempo foi passando e em 1989 as condições já haviam melhorado bastante: a Sega já lançara a continuação, Revenge of Shinobi, e numa máquina que podia sustentar a jogatina com vigor: o ainda “novo e espetacular” Genesis/Mega Drive (mesmo que reclamem do hardware do aparelho na parte sonora, o que Yuzo Koshiro conseguiu fazer foi impressionante). Se bem que no mesmo ano a Sega estragou com as saideiras, lançando um Arcade medíocre de Shadow Dancer, uma continuação paralela, e espalhou seu legado duvidoso de novo para o Master System (a Sega não sabe quando abrir mão de algo velho e ultrapassado!). [ironia] Para o 8-bit, agora sim fizeram uma conversão perfeita e adequada: [/ironia] um jogo ruim que continuou ruim.

Mas a Sega deu a volta por cima com o Shadow Dancer de Mega Drive, reformulado para se tornar uma agradável fusão da jogabilidade dos dois arcades (o primeiro Shinobi de todos e essa terceira edição). Em seguida, vieram as versões de Game Gear, um tanto distintas, por se ambientarem num portátil, com poder entre o de um SMS e um Genesis. Alguns puristas já não se identificavam com o rumo que a série tomara nos anos 90, alegando que os jogos eram curtos e fáceis demais, portanto menos épicos.

Brea? No videogame da concorrente, amigo!
Terminando esse longo (mais do que eu desejava de início!) balanço da franquia Shinobi, o único jogo decididamente ruim, não-recomendável sob nenhuma circunstância, da patota toda foi o Shinobi de NES. Ainda assim, podemos dizer que não foi culpa da Sega, já que os direitos para o título foram comprados pela Tengen, que o desenvolveu a sua maneira (o que também explica um game seguista saindo para um console da maior rival antes mesmo da falência do ramo de hardwares da Sega!). O que poderia ter deixado alguns donos de Saturn arrepiados antes do lançamento de Legions é que a encarregada de trazer o game para a América era a Vic Tokai, uma empresa com ainda menos prestígio que a Tengen, a ponto de ter lançado o HORRÍVEL Criticom para o 32-bit na mesma época em que saiu Shinobi L. Mau agouro? [TAN-DAN!] Nem sempre funciona assim: a Vic Tokai não poderia ser acusada de incompetência neste caso!
* * *

Terminando de uma vez (agora é sério!) com o prolixo preâmbulo e retomando o fio da meada, como já dito acima, igual com Castlevania da Konami e sua interminável linhagem de Belmonts, Shinobi tem sempre um Shinobi como protagonista. Musashi, Takashi ou até mesmo sujeitos sem nome como o “Red Ninja” de Game Gear (que tinha sangue Shinobi nas veias, isso é certo). Sem fugir da regra, Legions conta a história da quase dissolução do clã durante o período da dinastia japonesa Sengoku. Tessai, o boss atual da família, está ficando velho e não teve nenhum filho homem, só uma filha. Sendo assim, a sucessão se vê comprometida. A solução encontrada foi a adoção de dois gêmeos: Sho e Kazuma. Logo a dupla se revela um Yin-Yang, a encarnação do Bem contra a encarnação do Mal. Seu pai adotivo e mestre lhes ensinou tudo que precisavam para perpetuar a tradição shinobista: as artes do shuriken e da espada, entre outras, enquanto a filha, ah, provavelmente foi trancada num monastério para aprender a meditar e buscar a paz!
Desgraçadamente (e inesperadamente, para quem nunca viu um filme na vida, ó!), Tessai morre antes de eleger qual dos dois herdaria o posto de patriarca, que deve ser uno. Será que preciso mesmo dizer o que acontece depois? Kazuma forma uma gangue que estiola muitas terras, camponeses e governos de cidades. Enquanto isso Sho finaliza seus treinamentos para dar um basta no irmão bastardo (Hokuto no Kenresumido em primeira mão!). Só não esperava tamanho golpe baixo de seu fraterno pior inimigo: ele seqüestra a irmã de ambos, Aya, e pensa estar em vantagem com a manobra perversa. Aya sequer é a irmã biológica de qualquer um desses dois, nem Sho crescera junto de Aya. Por que tanto interesse na garota? Hmmm…

* * *
Nada a temer, enquanto as pernas não tremerem por causa de uma mulherzinha refém: Sho está cheio de armas e golpes para realizar a vendeta. Um dos primeiros aspectos notáveis é que Sho segura uma katana completa já de saída, sem precisar dos upgrades “POW” do Shadow Dancer para alongar uma antes curta espada! Mas mais do que empunhar espadas tão grandes quanto ou maiores que as dos ancestrais, Sho conta com outras pirotecnias: um combo de 3 hits, um rodopio 360 com sua lâmina em riste e até uma postura defletora de shuriken inimigas! Os cortes podem ser desferidos em 6 direções (todos os pontos cardeais e colaterais, com exceção de norte e sul); aliás, 7, se você contar o “pulo armado” com a lâmina apontada para baixo, que substitui a voadora apelona de Shinobi 3. A limitada munição de estrelas continua sendo uma das marcas da aventura (o gamer pode escolher a quantidade antes do jogo). Tem também a manjada técnica do pulo duplo e arremesso das 8 shuriken para baixo OU para cima simultaneamente (use apenas em momentos críticos).
Os itens ainda são encontrados em caixas. Há “bolas-almas”, equivalentes aos anéis de Sonic ou moedas de Mario, a não ser pelo fato de que são bem mais infreqüentes, uma vez que 10 delas bastam para amealhar-se uma vida. O “POW” foi trocado por uma Bushido Blade bastante efetiva. E não se trata de nenhuma brincadeira com o game da SquareSoft – e sim uma espada especial que faz Sho brilhar por vários minutos e cujos golpes são sucedidos por uma aparição fantasmagórica que dá cabo dos inimigos que não tiverem sido cortados mas que estejam próximos o suficiente. Na prática, é quase um limpador de tela! Por último, o power-up chamado Fire Dragon, o correlato do golpe de ninjitsu dos Shinobi precoces, que mata com um golpe só. Não mencionaremos o resto porque são repetições de itens de outros games Shinobi.

* * *
Embora não seja nem admirável nem original, o enredo não seria a tragédia (no sentido de execução mal-feita mesmo) que é não fosse pelos diálogos asquerosos das cutscenes. E elas vêm em abundância: de 3 a 5 cenas nos intervalos de cada fase mostrando os progressos de Sho na caça ao irmão (particularmente, explica-se a transição entre os ambientes que você percorrerá). Qualquer reviravolta barata imaginável é usada nessas pequenas tomadas cinematográficas. Por exemplo quando o vilão aponta a faca para a garganta de Aya exigindo que Sho o obedeça, enquanto a irmãzinha/amante do herói berra: “Não o escute, é uma armadilha!”, e você, ninja sentimental, cai mesmo assim… E apesar das falas serem em japonês (com legendas em inglês, felizmente – ou infelizmente?) dá para sacar que a atuação não é das melhores, nem nas insinuações verbais nem nos combates. O mais divertido é prestigiar as frases em japonês que começam com “fu” e “ka”.
Balançar a espada nunca foi tão exigido num Shinobi. Shuriken, as estrelas cortantes tão úteis em outros tempos, terão um efeito muito menos radical que de costume. Além disso, seu disparo é muito lento e dá margem para a reação dos adversários. Falando em lentidão, os controles não são os mais responsivos da franquia, mas talvez estejam melhores que em Revenge, a “ovelha negra”. O lado bom é que soam convincentes. Um jogo à frente de seu tempo num aspecto: seu personagem conta com 35 movimentos, e não é um título de luta! O chato é que os próprios inimigos e o processo de massacrá-los não são tão instigantes e quem não quiser aprender os 35 gestos de Sho Shinobi poderá se contentar com uns 5 ou 6 e mesmo assim chegar ao final. A cada 3 passos é certo que haverá outro oponente para golpear, pois eles surgem em enxames, como se estivessem brotando de uma esteira numa indústria, mas sem muito controle de qualidade, pois sucumbem logo.

Não há muitos modelos de ninja, o que deixa um ar de vazio considerando o tamanho e o número das fases. 70% dos capangas são atiradores de shuriken; 20% umas variações do tipo homem-bomba ou samurai; os outros 10% você enfrentará nas primeiras telas do jogo. A quantidade de pulos – Shinobi nasceu bem mais Plataforma – para evitar abismos ou obstáculos inanimados nem faz frente ao de soldados a derrubar. Na segunda metade a dificuldade pode espantar parte do público. A fase do carrinho da mina é um SACO. Tem a cena clichê e no entanto clássica do elevador em que o personagem fica espremido vários minutos enquanto entram, em diferentes andares, todos os modelos de inimigos do game, um a um, até você fazer a pilha de cadáveres bater no teto! Para não dizer que ficamos só nos ninja, há águias, homens-bazuca e serpentes. Na verdade, falando de Shinobi, sentimos falta mesmo só dos robôs!
Nem todos curtem gráficos renderizados, que ficaram sobretudo famosos após sua utilização em larga medida na série Mortal Kombat. Capturam-se os movimentos dos personagens e há uma “varredura” de sprites tal em seus modelos que eles adquirem uma incrível semelhança com modelos poligonais (3D), embora tenham apenas duas dimensões. O que se critica muito nesse tipo de engine é que os movimentos podem parecer muito anti-naturais e saltados quando não foram filmados ou transferidos quadros o suficiente. Glitches, como pontos soltos, também se tornam mais comuns. Em Legions, tirante movimentos de pernas meio esquisitos, a animação de estruturas renderizadas ficou ótima, para os padrões de 1995. Melhores ainda estão os fundos, tais quais os da vívida floresta no Monte Fuji e as nuvens carregando tempestade, tapando a lua cheia do primeiro nível. Nas interações facultativas em que o protagonista destrói partes do cenário residem alguns dos melhores guilty pleasures do jogador: derrubar árvores de bambu ou correr despedaçando as caixas da etapa no cais!
Os atores das FMVs de Shinobi Legions podem ser os caras mais bregas da galáxia, mas a qualidade do vídeo é louvável para o ano do jogo. Se serve de consolo, as vozes soam sempre nítidas, [ironia] principalmente para quem NÃO sabe japonês! [/ironia] A trilha perdeu sua parte techno que dava um feeling assassino nos primeiros jogos. A adrenalina já não é mais a mesma contando apenas com as faixas estilo ninja de sempre. O gênero nipônico tradicional não é ruim, mas se repete muito, parece que as músicas são erguidas sempre sobre as mesmas notas…

Momento marcante: a hilária tela de continue em FMV!
Morre-se demais em SL, seja porque há muitos abismos ou porque ao morrer no fim de uma fase você tem praticamente de cruzá-la de novo, sem checkpoints. Aos que acham tudo isso coisa de fresco e zeraram com muita facilidade, para não abandonar o CD de imediato sugiro 2 medidas: estipular menos continues e aumentar os hits para que os inimigos caiam. Com soldados mais resistentes e menos chances para Sho, eu quero ver você finalizar de novo sem suar sangue!
Nem Sho, com seu sentimentalismo, nem Aya, com sua incapacidade para se defender a si mesma, nem Kazuma, com o plano mais idiota do mundo, conseguiram desgraçar a linhagem Shinobi. Certamente os antepassados não estão nem aí para as malignidades do último, mas para as boas lutas que puderam promover os guerreiros com seu ostentoso sobrenome. Não podemos ficar desapontados, pois a encarnação 32 bits de Shinobi tem excelentes momentos. E é verdade que é um epílogo de muitos anos para a série, pois a Sega se focaria em outras marcas registradas dali em diante (sete anos até Shinobi PS2)… Infelizmente há 13 anos a franquia não ganha um episódio novo, a última aparição tendo sido no 3DS.
Lista de agradecimentos
fekkot do gamefaqs
mobygames.com
wordreference.com
versão 2 – 2013; 2024.
® 2002-2024 0ldbutg8ld / RAFAZARDLY!
Deixe um comentário