

SUPER-REVIEW #4 DO RAFAZARDLY/0LDBUTG8LD
Por Rafael “Cila” Aguiar






Ahistória de Ys no Sharp X68K ou 68000 para os íntimos é uma das mais peculiares e longevas jamais contadas. Bizarramente, o primeiro episódio da franquia a ser portado para o computador então popular em solo japonês foi o terceiro (frase estranha essa), o menos indicado para servir de introdução a Ys, já que abandona a top-down view e abraça o side-scrolling com força. O jogo chegou em março de 1990 ao sistema e não apresenta diferenças substanciais em relação aos computadores do Japão que também receberam o título e nem na comparação com o PC Engine, que apesar do nome é o que mais próximo temos ao hardware do Sharp 68 e que não obstante classificamos incontestavelmente como um console ou videogame e não um computador pessoal. Obviamente poderíamos citar as versões Genesis/Mega e SNES, mas o 8-bit PC Engine (Turbografx-16 no Ocidente) se parece muito mais com a engenharia do X68 que estes irmãos, digo, concorrentes mais possantes e novinhos.

Ys III no Sharp X68000
A relação Falcom–Sharp nada teria de peculiar ou destacável se as coisas parassem por aí. Quantos consoles não recebem títulos do meio da vida ou evolução de uma franquia, e fica por isso mesmo – os episódios anteriores não foram lançados no tempo de vida útil do hardware, nem este recebeu qualquer continuação até ser descontinuado, etc.? Porém, um ano após a vinda de Ys 3: Wanderers from Ys ao Sharp 68, o computador recebeu um inusitado remake de Ys 1. Ys 1 recebeu inúmeras conversões para outros sistemas depois de inaugurar sua existência no PC-8801. Em nenhum caso, porém, a Falcom havia decidido retrabalhar várias mecânicas de jogo e fundamentalmente os sprites, criando quase que uma obra nova. Até hoje essa versão é única, e experienciável apenas no próprio Sharp 68K. E a partir daqui toda a história da Falcom, sua franquia número 1 e o computador da Sharp só fica mais e mais improvável e esquisita (no bom sentido, pelo menos)!

Este novo Ys 1, vindo numa época em que estava longe de ser moda apresentar remakes (ainda mais de um jogo que sequer completara 5 anos), foi rebatizado Ancient Ys Vanished. O “Ancient”, reza a razão, viria para contrapô-lo a todas as outras versões de Ys Vanished no mercado., correto? O curioso é que na capa da embalagem do jogo e na tela-título só lemos Ys, e que em outras fontes oficiais encontremos a nomenclatura do jogo precedido por esse mesmo prefixo, separado por dois pontos do… subtítulo?… que de outras perspectivas parece ser o título mesmo – Ys: Ancient Ys Vanished. Dois Ys para 4 palavras, não é um pouco megalomaníaco? O mais estrambótico, porém, é que outros ports de Ys receberam o mesmo título sem cagar nem pôr, digo, tirar nem pôr: Ys: Ancient Ys Vanished é o nome oficial de Ys I para FM-7, MSX, NEC PC-8801 e seu sucessor o NEC PC-9801. Para outros sistemas, como o PC ocidental (rodando o Microsoft MS-DOS) e o Apple-II 8 bits do Jobs, o título foi trocado para Ancient Land of Ys na adaptação. Seja como for, este lançamento de julho de 1991 é o único da série Ys no Sharp X68000 que merece, de facto, uma resenha propriamente dita, porque nem Ys 3, que veio antes, nem o próximo game que comentaremos apresenta qualquer característica in-game inédita ou merecedora de atenção, no mar de cópias de outros Ys antigos para outros sistemas.

O revamp que fizeram foi surpreendente: as cidades de Ys 1 ficaram mais vivas, com mais NPCs com que interagir, e mesmo mais caixas de diálogos mesmo para personagens já contidos na obra original. As dungeons saíram-se bem fidedignas. As diferenças em termos de mapa estão nas áreas a céu aberto. Os campos e trajetos conectando vilarejos ficaram menores, embora não escandalosamente menores. E, em contrapartida, a primeira cidade e o coração das interações não-combativas do jogo, Minea, foi amplamente redesenhada, com mais prédios e lugares de interesse para o RPGista.

A gameplay, os itens do jogador e aspectos mais centrais não sofreram interferência. Todavia, os inimigos foram completamente redesenhados, e não apenas atualizados graficamente, como tudo o mais (Adol e os cenários), e brindados com padrões de ataque e até comportamento de bando (inteligência artificial) inéditos. No primeiro game – nas edições de PC-88, NES, PC-98, também no Apple-II, no FM-7, no Master System, no PCE ou no próprio Sharp X1, o computador de geração anterior da Sharp, comparável em poder de processamento aos concorrentes da Nec PC-88 e PC-98 (mais ao segundo que ao primeiro), e até na versão Saturn de Ys I achada numa obscura compilação de clássicos da Falcom – os oponentes do protagonista Adol Christin nunca se comportavam coletivamente, tentando cercá-lo e se agrupando. Era cada um por si. A rotina de movimentação foi redesenhada do zero para esse remake, e as batalhas ficaram mais cerebrais e perigosas. Sobre o sistema de level-up, essa sim é a mecânica mais proeminente que foi mexida pelos designers. Adol ganha mais EXP ao derrotar os inimigos, que estão mais desafiadores, e ao migrar de nível o HP aumenta, cada vez, mais pontos que antes. No geral, a interface está mais justa para com o jogador. O primeiro chefe, em vez de atacar de dentro do primeiro labirinto, inicia o combate já à entrada, do lado de fora. Não só os gráficos foram re-texturizados, mas há toda uma nova direção artística. Francamente, eu não desejaria essa mudança em todos os games japoneses, mas me surpreendi com a qualidade do resultado dessa empreitada: optaram por abandonar os traços caricatos de anime e foram para uma caracterização hiper-realista dos NPCs e do próprio Adol e monstros, para dizer a verdade. Com certeza alguns leitores ficaram chocados e enojados com as imagens, ao compará-las com a direção artística das versões “clássicas” ou “tradicionais” de Ys I. Além de haver uma clara intenção de deixar Ys mais “próximo do mundo (fantástico mas) real”, isto é, mais sério e grave, uma decisão que julgo atmosférica, os sprites na tela dão uma clara sensação de fake-3D, acrescentam mais “recheio” e parecem no meio do caminho entre o bidimensionalismo puro da visão olho-de-pássaro do Ys 1987 e um Ys poligonal (lembremos da data do jogo: 1991 – nada aqui é com efeito poligonal ou tridimensional!). Ficar no meio do caminho não é necessariamente ruim. Não faltou firmeza e identidade à parte imagética; diria que Ys no Sharp 68000 é simplesmente único. Haverá detratores, gente boquiaberta, gente que ridiculariza e gente que adora. Comparando com pseudo-3Ds da época, Ancient Ys envelheceu mil vezes melhor que Alone in The Dark! No fim, só faltou citar que talvez nada dessa reformulação visual drástica tenha sido idéia da Nihon Falcom, mas sim da empresa que desenvolveu o port, a Denpa. Qualquer que seja a verdade, a Falcom obviamente deu seu consentimento, no mínimo. Curiosidade extra: a tela-título, a arte de capa e o manual do jogo foram produto da mente irrequieta de Yoshitaka Amano, ninguém mais, ninguém menos que o maior character designer da história da franquia mainstream Final Fantasy.

Ys I & II: Lost Ancient Kingdom é a verdadeira sensação dessa matéria especial. Foi a motivação de sua existência. Em que pese ser uma adaptação interessante, Ys 1 para Sharp X68000 não gera comoção ou observações o suficiente para se tornar um review-solo, até porque já resenhei algumas versões de Ys o primogênito! O curioso é que, pelo título, parecerá ao fã que não passa da versão 68-miliana de Ys I & II, a magnum opus, de Turbografx-16, a versão definitiva do Ys old school. É e não é ao mesmo tempo. Primeiro observemos, aliás, que não haveria como um título de X68000 ultrapassar a execução no Turbografx das duas primeiras aventuras de Adol, principalmente porque a gameplay já era quase perfeita e porque, para aqueles que não sabem, o PC Engine foi a primeira máquina a rodar Ys em CD-ROM – e para uma franquia que se jacta de ter sempre trilhas sonoras dentre as melhores dos games, isso não é pouco. Sim, senhor: no Sharp X68K e essa miríade de PCs japoneses que citei anteriormente, os jogos eram basicamente em disquete ou floppy disks, mídia ultrapassada face até ao cartucho de silício, por mais que, num todo, o Nintendo Entertainment System e o Sega Master System não pudessem recriar Ys com a mesma qualidade dos periféricos japas. Prova disso é que mesmo um jogo pequeno como Ys 1 precisava vir em vários disquetes.

Voltando à afirmação em negrito do parágrafo anterior: Lost Ancient Kingdom é (mais) uma (das infindáveis) coletânea(s) de Ys, o primeiro + o segundo. Mas é a coletânea mais doida e inesperada da história da Falcom, e um verdadeiro acontecimento gamístico. Primeiro porque foi lançada ANO PASSADO em relação à data da redação deste texto, 17 de novembro de 2022. Este é um game lançado há menos de 21 meses – para um hardware que todos (e deus depois de todos) julgavam absolutamente aposentado. Que um console continue a receber jogos indie, isso não espanta mais ninguém. O NES, o Super NES, o Mega Drive e o Dreamcast, para citar apenas alguns dos mais hype, integram uma cena underground vicejante, com jogos sendo lançados todos os meses, sejam conteúdos originais, mods de jogos que fizeram sucesso nas plataformas, simples traduções, demakes ou qualquer outra classe de obra interativa que rode na respectiva máquina. Isso posto, estou falando de um lançamento oficial para um computador nipônico 8-bit, uma verdadeira homenagem da Falcom a sua série-mor em seu quadragésimo aniversário (da Falcom, não de Ys!), e em todo o esplendor de disquetes de 5.25 ou 3.5 polegadas, a gosto do cliente! Algo parecido, mas nem de longe tão grandioso, foi visto quando a Nintendo lançou Star Fox 2 para SNES, graças ao leak do game (mero protótipo abandonado no meio do caminho para o desenvolvimento de Star Fox 64) e também à comercialização do produto via Virtual Console com algumas décadas de delay. Isso por si só, a ressurreição de um console ou PC de gerações passadas, me espanta tanto que já se torna a notícia, o que me motiva a comentar o evento e o momento!

Explicadas as razões, dissequemos esta coletânea inédita e que com certeza será vendida a peso de ouro no ebay daqui a alguns anos, pois é uma edição limitada e o público consumidor é pequeníssimo.

LAK é composto de:
(1) Ys II: Ys Ancient Ys Vanished: The Final Chapter, o nome por extenso de Ys 2, que nunca havia sido lançado para Sharp 68. (Este jogo é uma cópia pixel perfect da versão PC-88.);
(2) Ys Ancient Ys Vanished, essa versão super-repaginada de 1991 que “micro-revisamos” logo acima, do próprio Sharp X68. Eis que o GameFAQs, a bíblia dos games retrô, meteu essa:

No RAFAZARDLY, contudo, a verdade prevalece!
Em resumo, não é uma coletânea qualquer: é uma reparação histórica para com marmanjos que, na juventude, ficaram muito magoados com a Falcom por ter “abandonado” o PC Sharp e, curiosamente, deixado que o hardware contivesse um Ys 1 inimitável e um Ys 3 – mas deixando o buraco da transição sem remendo. O vazio na trilogia virou um buraco no coração dos usuários. Ok, chega de drama – ninguém se matou porque não pôde jogar Ys II no 68 mil, a vida seguiu, outros videogames foram e vieram nas mãos dessas pessoas, ou elas até evadiram e esqueceram essa seara da arte e do entretenimento! Não deixa, por isso, de ser hiper-bacana e satisfatório, catártico…

E não pense você que eu sou sensível demais a coisas nostálgicas e só eu fiquei excitadinho com esse lançamento anômalo. A mídia estremeceu com a notícia dessa iniciativa da Nihon Falcom em 2020, conforme alguns dos melhores portais de games que não cobrem só consoles contemporâneos demonstram numa rápida googlada. É claro que IGN e GameSpot não estão nem aí – e nós não estamos nem aí para eles também!

“Em 24 de novembro [de 2020] a Falcom anunciou uma nova conversão de Ys I&II para os computadores X68000 (da Sharp), com previsão de lançamento [futuramente confirmada] em 9 de março. O port será comercializado fisicamente (o disquetão único ou o disquete menor, em 2 unidades, cabendo em cada qual um dos episódios) na loja especializada em conteúdos retrô/estúdio de programação de nicho Beep Akihabara, [É ÓBVIO QUE NÓS OCIDENTAIS FICARÍAMOS DE FORA DA FESTA – MAS QUEM AQUI SABE QUE DIABOS É UM 68K, NÃO É MESMO?!?] que atualmente trabalha ainda no projeto Cotton Reboot. O episódio 1 o Sharp já possuía; o segundo será portado fielmente com base na versão de PC-98. […] Um dos aspectos melhorados no episódio 2, no entanto, será a possibilidade de salvar instantaneamente no hard drive, sem necessidade de um disquete especial de salvamento, como era praxe para a época. O jogo custará 8800 ienes [= R$340 na data. Previsibilidade é importante! Quem aqui sabe quanto em reais um jogo a ser lançado em 6 meses custará?]”
DualShockers.com
A mesma matéria ainda lembra que a Falcom, hoje trabalhando exclusivamente no PlayStation no mercado doméstico (PS4 e PS5) e no Switch para os handhelds, nunca abandonou sua seara originária, que são os PCs, embora nos últimos tempos, com a universalização do modelo Windows, tenha se tornado uma vedete da Steam no Ocidente, ao contrário de seus anos iniciais, quando era praticamente desconhecida por aqui, mas fazia a festa nessas dúzias de computadores que se confinavam às ilhas do Pacífico! Com efeito, a volta ao Sharp 68K é uma das coisas mais enternecedoras na indústria dos games que testemunhamos desde que a Sega passou a lançar jogos com o Sonic e o Mario, o sonho da infância de muitos moleques noventinos. Curiosamente, a Falcom tem se especializado em produzir jogos para a família Sony com as próprias mãos, mas costuma contratar subsidiárias para as versões PC de seus títulos, o que também ocorreu dessa vez neste lançamento comemorativo. O que muita gente esquece é que com a ajuda de títulos como Xanadu e Dragon Slayer a empresa praticamente forjou o gênero RPG/Ação. E não fosse por Dragon Quest teria fundado também o próprio conceito de Role Playing Game japonês (diferente, na essência, dos jogos americanos baseados nos livros de RPG de mesa).

Mais inesperado foi o anúncio da Falcom pelo fato de a third party, de dimensões modestas, ter, geralmente, um calendário “pé-no-chão” para seus lançamentos: um jogo por ano. Em 2020, a companhia quebrou a tradição e anunciou para 2021 múltiplas obras: afora este compilado comemorativo em data redonda, um novo episódio da franquia Kiseki (Trailsna América, PS4/PS5 – que é na verdade um spin-off de outra franquia maior da Falcom, The Legend of Heroes, representante da empresa no nicho dos RPGs de turno), embora, como (quase) sempre, restrito ao Japão e adjacências (a Coréia do Sul tem se beneficiado de alguns lançamentos). Há esperanças, no entanto, de futura localização em inglês, como já aconteceu com episódios da série. Obviamente, o maior game da Falcom em 2021 foi o mais novo episódio canônico de seu carro-chefe em sua versão ocidental, Ys 9: Monstrum Nox, mas essa é uma outra estória, para um outro dia…

Moral da história? Vamos procurar aqueles aplicativos de compra coletiva e fechar um curso de Japonês barato para nós, pessoal! …E longa vida à Falcom!

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Lista de agradecimentos pela cessão de imagens e informações:
DualShockers.com/
Iyane Agossah
GameFAQs.com/
DeadsideSerpent
Kotaku.com/
Brian Ashcraft
Rosa Canina
mobygames.com/
Ms. Tea
Unicorn Lynx
A melhor fonte de informação para Ys clássicos: até onde eu sei, é o único lugar da internet que resenhou TODAS as versões de Ys I, até mesmo aquela contida num CD de Saturn que pouca gente sabe que existe, a única aparição de Ys em consoles caseiros entre a era SNES e os anos do reinado do PlayStation2!
versão 1.0
review em formato pdf (fundo branco, novas cores de fonte para contraste ideal):
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