atlantis (ata)

Atari 2600

Atlantis

F I C H A    T É C N I C A

Developer Imagic

Publishers Imagic (EUA), CCE (Brasil)

Estilo Ação > Shooter > Câmera fixa

DATAS DE LANÇAMENTO:

EUA – 07/82

BR – 1983

Incluído nas compilações:

A Collection of Activision Classic Games for the Atari 2600 (PS)

Activision Anthology (AND/iOS/PS2)

Activision Hits Remixed (PSP)

Activision’s Atari 2600 Classics (PC)

NOTA

7.2

Este jogo é pra…

(  ) passar longe  (X) dar uma jogadinha de leve  (  ) dar uma boa jogada  (  ) jogar freneticamente  (  ) chamar a rua toda pra jogar  (X) um tipo específico de jogador. Qual? Os saudosistas  (  ) incógnita

Mitos alargam nossa imaginação, fazendo-nos lidar frente a frente com coisas que nossa percepção cotidiana pensaria absurdas ou risíveis. Aprendemos a maior parte das lendas fantásticas durante nosso período escolar, ou até mesmo pré-escolar. A capacidade de fascinação nessas faixas etárias é inquestionavelmente mais ampla – e as marcas, às vezes, tão profundas que remanescem até a velhice. Cientistas dos mais respeitáveis foram flagrados devotando-se mais do que deveriam, e numa postura desafetada e séria, a crendices e boatos, ou perdendo excessivo tempo em refutar o que não pode ser refutado, uma vez que não há provas da inexistência do que não inexiste, por assim dizer, ao passo que o caminho correto seria apenas provar aquilo que existe, e o resto, em exorbitando o terreno do mero folclore, que fosse com solenidade ignorado. Falo aqui dessas obsessões que o homem branco ianque médio encampou das tradições orais dos aborígenes ou outras fontes, exploradas à náusea nos seus documentários de canais a cabo de “história”, tais quais o pé-grande, alienígenas, conspirações em escala global sobre o controle da mente de bilhões de pessoas por uma meia-dúzia de seletos, ou então registros em vídeo ou fotográficos do Monstro do Lago Ness, cartão postal escocês, para não falar de dúzias de outros pseudomistérios de suposta primeira ordem e “ainda não resolvidos”. A solidão do homem ajuda a explicar muitos desses, mas sobretudo o das civilizações extraterrestres. Afinal, o planeta azul é tão reles, e vivemos num cosmo tão vasto… “Eu quero acreditar”, “a verdade está lá fora”… Antigamente citava-se Confúcio. Hoje tiramos nossos mantras de seriados americanos! X-Files, quando assistido por pessoas normais, mostra-se excelente e enriquecedor, não há comparação possível entre este e os programas de encheção de lingüiça de cultura inútil aludidos mais acima.

Outra estória da carochinha, talvez pior ainda que a do ET de Varginha, pela magnitude do que precisaria “estar sendo escondido” esse tempo todo, é a do continente afundado de Atlântida, em algum lugar no hemisfério sul do globo terrestre, miraculosamente de clima tropical ou temperado, tido como um paraíso, a despeito de cogitar-se que suas coordenadas estivessem mais próximas do pólo sul que do equador. Uma distorção mais ou menos elaborada do relato bíblico do Jardim do Éden ou daquele ainda mais arcano do Dilúvio Original pelos sumérios, na epopéia de Gilgamesh, ou ainda da sua variante aquéia no conto de Deucalião e Pirra, fantasia essa explorada, obviamente num senso alegórico, com muita graça de estilo e bom humor pelo mestre dos mestres, Platão.

E se de repente misturássemos duas dessas idéias mais tresloucadas num enredo sci-fi para uma peça de entretenimento interativo sem grandes pretensões?

No lugar do History Channel, o Atari 2600, mais especificamente um seu cartucho homônimo em relação ao continente insular supramencionado (Atlantis, o inglês para Atlântida), da Imagic, é da teoria de que a porção de terra de proporções monumentais (oceânicas? tum…dum!) não afundou deixando de existir há alguns séculos, milênios ou milhões de anos: ela simplesmente fôra ignorada em seu visível esplendor pelo resto da raça humana até agora, 1982; eis que uma raça de alienígenas malignos com algum tipo de interesse e sabedoria que superam nossa fútil consciência (os mais espertos são sempre malignos na mitologia americano-moderna!) a descobre primeiro. Atlântida, nessa leitura a mais peculiar de todas, é habitada por uma civilização ancestral, como nas especulações historiográficas fora de moda, mas a estabilidade de tal cultura seguiu firme, já que as placas tectônicas ali por debaixo também seguiram. Ou pelo menos prometia seguir firme mais uns tantos milênios, não fosse a ameaça do espaço! Os invasores aparecem às centenas em seus veículos brilhantes superdiscretos capazes de enganar sensores da Nasa e canhões laser bizarramente inspirados em Guerra nas Estrelas, filme humano. Entupindo nosso firmamento austral, a exótica esquadrilha sem-fumaça visa a extinguir qualquer traço do povo atlântico, a fim de assegurar a posse de seus dons. A única esperança dos nativos é um gênio tático com o equipamento destrutivo propício para fazer churrasquinho de vida sideral inteligente: você e o icônico joystick do Atari!

O jogador, isto é, o humano-atlântide com intenções de varrer a escória alienígena da área, dispõe de três canhões: um centralizado, um no extremo esquerdo e o outro no extremo direito da tela; os dois últimos capazes de atirar em ângulos diagonais; os três canhões, aliados, são o suficiente para cobrir o raio da fase inteira. Pressionando o botão sem nenhum auxílio do manche, apenas o canhão do meio irá disparar, tentando acertar os inimigos que atravessam no sentido horizontal de uma rabeira à outra da tela, em diferentes velocidades. Parece não ser o bastante. O segredo está no revezamento entre os tiros retos do canhão central e os disparos angulados dos canhões auxiliares, executado através dos vetores da alavanca. Esquerda ou direita no stick ou bastão alternarão para os canhões laterais (você tem de manter a alavanca fora da posição neutra até executar o tiro). Apesar de soar simples, tudo isso ainda depende do timing para acertar as naves aliens em perpétuo deslocamento no horizonte.

No princípio de cada estágio, a velocidade dos inimigos é “lesmular”. Depois de cerca de 10 alvos abatidos, outras naves em velocidade sobrenatural começam a aparecer. Elas transitam de um lado ao outro do campo de visão, partindo e retornando no mesmo movimento cíclico até que sejam definitivamente abatidas. Onde está o perigo? Esses primeiros algozes não contra-atacam, porém, em seguida, os aliens se revoltarão e começarão a responder com lasers, arrebentando Atlantis e tudo que estiver no caminho (com o tal gênio tático – o próprio jogador – no pacote!). Antes que a terra seja reduzida a oceano (a cidade vai sendo submergida gradativamente, conforme as fotos), é essencial concluir a tarefa de dizimação…

Ao contrário do ambiente primitivo e por isso inocente e ignorante do bem e do mal normalmente associado ao mito do continente submergido, o que se vê na tela conectada ao 2600 é um conjunto de cúpulas e prédios futuristas multi-coloridos. O designer das naves dos forasteiros do espaço não deixa por menos e acompanha a bizarra arquitetura dos atlântides, pois cada veículo tem um desenho único e chamativo, no melhor estilo Star Wars: Racer (obviamente, depois de muitos inimigos abatidos, as shapes começam a reprisar, pois ainda não estamos numa geração de consoles com muita capacidade de armazenamento de informações).

Exatamente como em sua legendária contraparte, Atlantis não parece obter o reconhecimento factual merecido, e acaba sendo engolida pelo abismo dos games quase totalmente esquecidos. A fama atual do jogo é a de ser um mero rip-off de Missile Command, do mesmo Atari 2600, considerado de jogabilidade superior. Seja como for, é impossível negar a diversão que proporciona bombardear visitantes indesejados no negro céu do pólo sul. A dificuldade da empreitada não é das mais comuns: parece vir de outro planeta!

Agradecimentos a discoinferno84

Por Rafael de Araújo Aguiar

versão 2 – criado em 2012, atualizado em 2022.

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