PC



Ys Eternal
F I C H A T É C N I C A
Developer: Falcom
Publisher: Falcom
Estilo: Action RPG
DATA DE LANÇAMENTO: 24/04/98 (JP)
NOTA
8
Este jogo é pra…
( ) passar longe ( ) dar uma jogadinha de leve ( ) dar uma boa jogada (X) jogar freneticamente ( ) chamar a rua toda pra jogar (X) um tipo específico de jogador. Qual? O RPGista old school; quem ama jogos difíceis, belos, algo simples e perfeitamente musicados. ( ) incógnita
Este review engloba dois jogos, que possuem o mesmo nome mas estão separados no tempo por 9 longos anos. Não à toa, já que a desenvolvedora é a mesma, e trata-se efetivamente, a segunda versão, de um perfeito remake do original, diferindo-se por ser exclusiva do mercado japonês e ter melhorado a apresentação gráfica e sonora espetacularmente. Citarei ambos os jogos ao longo do review, mas bem mais o de 1998. Se o leitor quiser saber com mais precisão como é o jogo de PC de 1989, recomendo a leitura do review de Ys: The Vanished Omens¹ (Master System). A única diferença é que Eternal – também chamado de Ys Complete em muitos meios – tem o dobro do tamanho, já que une os antigos Ys I & II num jogo só – você até pode escolher jogar só a partir do segundo capítulo, por exemplo. Todas as fotos da matéria são da versão mais atual.
¹ Parece que é, contrastando com a tela-título, mas não é erro ortográfico: os caras realmente tiraram o –s no remake!
Quando se pensa em RPGs de PC (no Ocidente), logo vem à mente Baldur’s Gate. Ou Diablo e Neverwinter Nights. Mas não muitos mais. Por que isso? A resposta é bem simples. O mercado de games para computadores pessoais norte-americano fechou suas portas à influência externa. Ou isso ou a influência externa decidiu não dar passos nesse inexplorado e imenso território! Talvez tudo se deva ao público, ao usuário-padrão. Seria ir longe demais dizer que os gamers de computador nos EUA só querem first-person shooters, estratégias em tempo real e títulos de ação? Seria ir ainda mais longe afirmar que eles querem especificamente “jogos americanos” desses gêneros? Sim e não. Ao passo que é fato bem conhecido de todos que os geeks ocidentais se focam em jogos ocidentais, também não é segredo para ninguém que, saturados culturalmente com seus próprios produtos, os gringuinhos muitas vezes nem sabem que existem outros mercados, então não é questão de “escolha consciente”.

Com certeza, gatinha!
Falemos da Falcom. Nihon Falcom é a líder em desenvolvimento de jogos de PC no Japão; principalmente Role Playing Games. É a criadora da série Ys, além de franquias muito bem-consolidadas como War of Genesis e Zwei!!. Enquanto Ys logo pulou dos PCs para os consoles caseiros em mais de um ponto na linha da História, os outros títulos da Falcom continuaram exclusivos dos computadores. O que faz pessoas como eu se perguntarem – por que não domesticarem (levarem para os videogames) os outros? A empresa tem o dom de nos abastecer com alguns dos RolePlays mais ricos e subestimados da civilização moderna! Pelo menos Ys, o melhor de todos eles, está no Oriente, no Ocidente, nos PCs e em vários e vários videogames. Essa – falando agora diretamente de Ys Eternal – que é a reencarnação do primeiro game (no que se refere ao lançamento de 1998) nunca ganhou os videogames.¹ Poderia ter saído, por exemplo, para Dreamcast, e mais tarde, quem sabe, para PlayStation2, já que consoles como o Nintendo 64 e o PlayStationOne não possuíam hardwares suficientemente bons para rodá-lo. Mas o importante é que a versão de 1989 existe em uma pletora respeitável de plataformas, e outros Ys ainda fazem a festa dos donos dos consoles de nova geração. Azar dos gringos jovens que só jogam no PC se nunca ouviram falar de Ys!
¹ Até a data do texto (2013). As conversões, no entanto, não são cópias fiéis deste Ys Eternal.

A qualidade visual é notável em cada polegada deste game, desde o momento em que se o carrega pela primeira vez após a instalação. Para ser mais preciso, é aparente do momento em que você pousa os olhos sobre o artwork da capa! Qual foi a última vez que ao instalar um jogo-aplicativo na sua máquina você se sentiu deslumbrado por um belo filme em anime logo na abertura? Uau, Ys chegou tão longe desde as origens, desde aquela versão primata de 89! O primeiro Ys é defasado até para o universo DOS. Pobre Adol (nosso herói ruivo), nada mais do que uma deformada pilha de bloquinhos. Se bem que esses gráficos antigos nos fazem lembrar dos tempos imaculados em que os jogos eram só 2D. Falando das duas dimensões, é o que você encontrará, ainda neste repaginado Ys. Muitos torcem o nariz quando pensam que não estarão diante de polígonos, mas trata-se de um preconceito que é curado a fórceps jogando. Embora não tão limpos e polidos como alguns sprites de jogos mais recentes como Guilty Gear XX, é muito melhor olhar para as estruturas de Ys Eternal do que para algumas abominações-clichê do universo de jogos americanófilos de PC da atualidade. De caranguejos marchando na praia aos finos raios de luz que atravessam frestas nas paredes dum templo antigo, Ys nunca decepciona. Herói e NPCs são as meninas-dos-olhos entre os elementos móveis do cenário. Os monstros, embora não sejam perfeitos, pecando por falta de variedade, estão decentes e possuem animações de morte sensacionais. Aos que têm repulsa por explodir partes do corpo em joguinhos, ah, lamento, sua opinião não importa tanto!

Chega de falar como Ys parece. Como Ys é jogado? De forma puramente simples. Não há táticas elaboradas na hora de enfrentar os monstros (exceto pelos chefes), é tudo questão de correr rumo a eles com sabedoria. Isso mesmo. Correr rumo a eles. Nada de afundar botões do joystick para usar a espada. O negócio é flanquear! Nunca seja tolo a ponto de colidir com um inimigo de frente, de forma não-angulada, a menos que seja um inimigo tão abaixo do seu level que não fará a menor diferença para seu personagem. É até difícil explicar como se opera nas lutas de forma que não pareça coisa de outro mundo, mas acredite, o processo é bem bobinho (e aditivo!). Só experimentando na prática para saber… Esse sistema de batalha possibilita decisões de vida e morte bem fugazes, já que o botão de sprint ficará acionado a maior parte do tempo. A despeito da esquisitice inicial que representa ficar rodeando o foe algumas vezes como se se o estivesse “estudando”, antes de partir para a estocada letal, é fascinante a indiferença de Adol diante de mais um cadáver que ele se torna o responsável por empilhar, e como seus pés-de-veludo deixam a cena do crime com naturalidade… E se os combates não fossem tão rápidos, fazer o backtracking (o jogo exige que se re-visite locais demasiadas vezes) seria doloroso. A última dungeon é uma torre gigantesca de mais de 20 andares, e o jogador ficará zonzo de tantas vezes que descerá e subirá as escadas de pedra; pelo menos você não é capaz de sentir as pernas do disposto Adol! Aliás, como o próprio Link, de Zelda, uma das séries evocadas quando percebemos que Ys é jogado através duma vista de cima e não tem batalhas de menus, Adol não se preocupa em falar, ou, estrategicamente, os desenvolvedores fazem com que suas falas jamais apareçam, para fazer de conta que ele é mesmo VOCÊ. Só que as outras pessoas com quem se irá interagir são bem tagarelas, então tudo se compensa…

Para quem se acostumou com níveis de experiência como “99” deve ser bizarro que o máximo em Ys seja 10. É que o jogo é muito curto para possibilitar uma escala numérica mais ampla. Além disso, Adol fica praticamente 2x mais forte a cada degrau que progride. Breve e de dificuldade intensa, assim pode ser resumido Ys. Mas ainda há espaço para dezenas de dungeons e chefes, se formos contar com as side quests. Creio que dentre todas as dificuldades as mais aterradoras se relacionam aos chefes. Essas criaturas deixarão seus polegares (ou indicadores, se você tiver o azar de jogar no teclado) inflamados por horas. Se fosse só isso… Você terá de deixar o orgulho de lado: o melhor jogador de Ys é o que aceita as múltiplas mortes – obrigatórias! – com humildade. Os mestres de labirinto, por mais complicados que sejam, apresentam padrões de ataque codificáveis e de tanto reprisar esses combates chegará fatalmente o momento em que você terá uma contra-estratégia perfeita. Há, ainda, um acréscimo do replay value do produto através da interface para regulagem da dificuldade, que vai de Fácil (que é realmente muito fácil) a Pesadelo (nunca um nome foi tão bem-escolhido!), marca registrada da série. Outra coisa: embora as batalhas com os chefes sejam curtas (porradas tiram um bom pedaço do life, para ambos os lados!) há um elegante Time Attack Mode que não deixa nunca a peteca cair: enfrenta-se todos os chefes com um cronômetro no canto da tela aferindo seu desempenho. Será que seu amigo consegue quebrar seu recorde?

Como Ys soa? Espetacularmente. Nada que diga respeito a tecnologias dolby surround sound, nada disso. Falo da música em si, independentemente do meio de propagação. Se você é habitué dos RPGs nipônicos, então não serão surpresas os temas melancólicos presentes na tela-título e nas cidadezinhas. Não são exatamente composições originais, mas o que está em discussão aqui é a capacidade de comover. Onde fica bom de verdade, entretanto, é dando os primeiros passos para fora da tranqüilidade do vilarejo em direção aos campos infestados de monstros e do desconhecido: o time musical da Falcom estava realmente inspirado quando incluíram esses riffs flamejantes de speed metal oitentista aqui! Finalmente um jogo de PC que não o força a escutar euro-trash techno/dance! E os efeitos? Efeitos sonoros para andar na grama, para andar no azulejo, para andar na poeira, para andar sobre camadas envidraçadas… Cumpre-se praticamente toda a lista de correspondências imagem-som!
Por que eu teria deixado a estória por último? Porque não se trata de uma grande narrativa. É aquele arranca-rabo típico dum RPG seminal, parece mais um anime de fantasia medieval do que um RPG num mundo fantástico. Salvar a garota, derrotar o cara mau. Se você gosta de enroscos novelescos, tente outro jogo!

É uma vergonha que esse título não tenha sido traduzido oficialmente para o mercado hermético dos norte-americanos. Mas os fãs não perdem tempo e existe uma versão traduzida por eles, para contemplar o nicho dos RPGistas que não têm olhos puxados. Se você não for dos que usam o computador para jogar, entretanto, e não consegue deixar o teclado seco nesta hora, de tanto salivar pelas qualidades que elenquei acerca de Ys, sua solução pode residir nas versões algo mais envelhecidas mas ainda repletas de vozes e cenas de animação de PC Engine/Turbo CD. Se sua intenção for a compra, esteja preparado para preços abusivos no ebay, como acontece com toda raridade gamística! Me perdoe o lugar-comum, mas em que pese Ys Eternal não ter ainda envelhecido como uma boa garrafa de vinho, já é altamente bebível!
Lista de agradecimentos:
Fórum do theisozone.com;
Anthony Karge do thunderboltgames.com;
Moonstruck do gamefaqs;
mobygames.com.
Por Rafael de Araújo Aguiar
versão 3 – criado em 2013, atualizado em 2022 e 2024.
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