PC

MapleStory
FICHA TÉCNICA
Developer: Wizet
Publisher: Nexon
Estilo: MMORPG
Data de Lançamento: 2002 (COR) / 12/03/03 (JP) / 11/2005 (EUA) / 31/05/07 (EUR)
NOTA
6.7
Este jogo é pra…
(X) passar longe ( ) dar uma jogadinha de leve ( ) dar uma boa jogada ( ) jogar freneticamente (X) chamar a rua toda pra jogar ( ) um tipo específico de jogador. Qual? ______ (X) incógnita
São tantas coisas a dizer nesta introdução – e no restante do review – que mal sei por onde começar. Muitos dos reviewers gringos (de quem habitualmente traduzo as análises dos jogos que ainda não conheço; vide créditos ao final, neste caso logins do GameFAQs.com!) que encontrei são ex-adeptos da “maplemania” que acabaram se insurgindo terrivelmente contra o produto. A Wizet é uma empresa instalada na Coréia do Sul que pouco a pouco foi expandido seu joguinho viciante, com ajuda da Nexon, por servidores ao redor do mundo todo. Desde que atingiu o mercado americano, não havia por que não dar o que falar entre nós brasileiros, visto que 95% dos gamers (não-fajutos) têm por obrigação dominar o idioma universal (nosso Esperanto é o Inglês) e são ávidos por novidades. O primeiro traço que devo destacar é a inexistência de um enredo para a trama, curiosamente batizada de MapleSTORY. Em segundo lugar, trata-se de um Role Playing Game jogável apenas pela internet cujo serviço é – em tese (vide abaixo) – grátis, estando a mais nova versão do jogo disponível no próprio site oficial da empresa responsável. Mas contrariando todas as expectativas dos WorldofWarcraftianos, trata-se de um RPG mesclado com Ação, sem turnos, e em duas dimensões, à la Mario! Alguns diriam que se se acrescentasse Pokémon, Metal Slug, Castlevania: Symphony of The Night, Worms (os dois últimos por causa dos cenários) e Final Fantasy IX à comparação, ela estaria perfeita. Um dado peculiar é que os jogadores (PCs, humanos) não podem se enfrentar diretamente: eles estão conectados apenas para esmagar monstros, aberrações NPCs! Dito isso, sigamos com uma dissecação kilométrica que espero fazer jus à qualidade da obra em questão…

SISTEMA DE JOGO
Primeiro, o jogador deve se registrar no site do jogo e baixar o software (que ocupa apenas 1GB – realmente não serão as especificações técnicas o impedimento para se experimentar!). Para existir em MapleStory é necessário, obviamente, criar o personagem (a rigor, pode-se administrar 3 personagens sob a mesma conta, mas veremos que um só já é pesadelo o suficiente!). Para cada parte do corpo há de 3 a 5 possibilidades de escolha no tocante à aparência. Quanto à arma, nesse ponto porretes ou espadas provocariam o mesmo dano, portanto não se preocupe com isso ainda. Em seguida, deve-se optar por um atributo, que corresponde a uma classe: Sorte (ladrão), Inteligência (mago), Destreza (arqueiro) ou Força (guerreiro). Após alguns procedimentos randômicos, seus números iniciais serão determinados (as habilidades do personagem). Um tutorial se ocupará de ensinar os comandos básicos e como se localizar no mapa, embora este segundo procedimento seja aprendido mais na marra do que num treino prévio ao jogo em si. Com respeito aos comandos, não há nenhum mistério. Devido ao elevado número de funções exigidas, o teclado é mesmo o controle ideal: as setas movem o personagem, Ctrl ataca e Alt pula (“saltar” é uma ação incomum mesmo nos RPGs mais agitados, como Zelda – se o jogador der bobeira, cairá em abismos e morrerá mais que o Mario no mundo 8 em Mario Bros. 1!). Magos precisarão de mais teclas, pois podem ser necessários até 8 atalhos imediatos para spells.

O personagem precisa atingir o nível 10 para começar a trabalhar e, assim, deslanchar no “sistema”. Conforme vai evoluindo, se engajando em batalhas e missões, tem de dar preferência a uma sub-especialização ou outra. Talvez o principal problema do game esteja aí: demora muito para subir de nível. Como era de se esperar num RPG, conforme seu boneco fica mais forte, demora cada vez mais, mas exageradamente mais! A analogia do prédio que se tiver um andar da base mal-construído pode desabar é perfeita, e evidencia a crueldade sobre a qual a mecânica de jogo é montada, na maioria das vezes. Usuários de servidores de Runescape, World of Warcraft, Adventure Quest, Dragon Fable e Mech Quest reclamam que em nenhum desses outros MMORPGs é tão trabalhoso subir de level!
É incrível como para muitos demora até chegar ao lv. 20 ou ao 35 antes que tenham a (correta) sensação de que não estão, na prática, chegando a lugar algum. Para se ter idéia, alguém no nível 30 terá de amealhar 70 mil pontos de experiência para avançar mais um degrau, rumo ao lv. 31. Cada monstro assassinado lhe garante… 99 pontos! São, literalmente, milhares, até dezenas de milhares, de batalhas, consumindo seu tempo até que o personagem se torne um grão de areia mais forte. Pergunte-se a diferença entre um de nível 35 e outro de nível 39: não muda quase nada! O tempo todo parece que os jogadores se aperfeiçoam em vão. Principalmente porque sempre haverá uma horda de caras mais fortes, prontos para surrá-lo, por mais que o jogador passe 24h por dia marretando monstros, meses a fio! Dentre os superiores, por sinal, há aqueles que pagam para ter mais pontos de experiência e aqueles que roubam. Mas falaremos dos hackers mais abaixo… Como se não bastasse, ao morrer, perdem-se 10% dos pontos de experiência. Achávamos que você precisava saber disso antes de se encher de confiança e experimentar esse exercício de monge chamado MapleStory! Uma atenuante é que os ladrões não sofrem tal penalização, por serem naturalmente “sortudos”!

Jogar sozinho (na web, é claro; porém, sem “colegas íntimos”) pode ser altamente entediante (e nada recompensador, pois os trabalhos dão pouco dinheiro ou prêmios imbecis e as tarefas exigidas são desproporcionalmente longevas e exigentes), por isso se juntar a bandos ou guildas pode ser parte essencial do seu desfrute de MapleStory. Entrar nos primeiros é mais simples; incursar nas segundas é prerrogativa dos mais experientes. Bandos não exigem mais do que 4 a 6 pessoas (dependendo da classe), mas podem entrar mais pessoas do que isso. Como tudo é dividido entre os membros do “party” (dinheiro e exp. points), todos pensarão um bocado antes de formar parties muito extensas. Itens continuam sendo de possessão individual. Quanto às guildas, por agora é o bastante dizer que elas só podem entrar em atividade no mar. Mais abaixo teremos mais algumas palavras (acres) para descrever tal engine!

Um rápido esclarecimento sobre o mapa, visto na segunda imagem desta matéria: as cidades das quatro classes primordiais são lugares que o jogador deve aprender a visitar logo cedo. Existe a Henesy para os arqueiros, a Perion para os guerreiros, a Kerring para os de vocação ladina e a mágica Ellinia. Geralmente as partes exteriores do mapa são mais acessadas em campanhas-solo, durante treinamentos ou movimentações coletivas (bandos ou guildas). Por partes exteriores, entender tanto florestas e desertos quanto o vasto oceano.

O PROBLEMA DE JOGAR PELA INTERNET: O INFERNO SÃO OS OUTROS
Primeiro, vamos ao fator não-humano do tópico que expõe mais claramente a desgraça em que recai MapleStory: os malditos lags. Apesar de contar com 150 mapas (cada um sendo uma réplica exata dos demais) em cada canal; 20 canais em cada servidor; e 5 servidores para se jogar… O problema continua alarmante. Toda essa engenharia de salas e servers resulta num suporte para 75 mil pessoas jogarem ao mesmo tempo. Pode até atender a demanda numa determinada faixa horária, mas a questão é a distribuição irregular do pessoal pelos servers, nas salas e nos mapas. Com 4 ou 5 pessoas, uma área já começa a sucumbir à lentidão endêmica! Sem contar o inconveniente de andar por 10 minutos para cruzar um continente. O que aconselhamos é que você jamais acesse o canal 1 a não ser que precise desesperadamente efetuar alguma venda de item. Do contrário, vai ter de sofrer as excessivas penalizações por morrer de forma tola, com monstros atacando de todos os lados sem poder se defender.

Mas essas dificuldades de ordem técnica não são nada diante do fator humano. Sim, vamos encará-lo: a maioria esmagadora dos jogadores é composta de adolescentes e pré-adolescentes, muitos deles sem um nível minimamente discernível de sociabilidade. Há uma estranha expectativa por parte de quase todos, dos chatos de plantão sobretudo, de que qualquer um já entre no server ou nasça sabendo das regras. Qualquer pessoa perguntando sobre ferramentas básicas do jogo sofrerá o mais inclemente bullying. Se você for neófito em bandos ou em guildas, e isso ficar patente, ser chamado de “noob” ou “newbie” é apenas o melhor que pode acontecer. A prática da difamação – pública ou pelas costas, tanto faz – encontra ampla e absurda margem neste telefone sem-fio descarado que revela ser MapleStory!
E há ainda os hackers. MapleStory é um game de programação muito pouco sofisticada, simples de ser hackeado até por crianças. Espere por traquinagens cometidas por moleques de 12 anos, senão menos, que estragam completamente o seu jogo! Inclusive o senso dessa expressão se perde totalmente, já que um JOGO – eletrônico ou não, de multiplayer massivo ou não – se fundamenta em regras bem-definidas.

Outra tática que aborrece bastante as pessoas (ou vítimas) e que não depende em absoluto de conhecimentos de programação e da aparição de hackers é o que chamam de kill steal, quando roubam uma morte do adversário. Imagine a seguinte situação: você está lutando há 5 minutos com um monstro; o HP do monstro está decrescendo, finalmente vai morrer; na hora H, aparece um malandrão, se interpõe no caminho e dá o golpe derradeiro; como ele foi o “homicida”, leva TODOS os pontos de experiência do confronto. Acredite, alguns internautas perseguirão desafetos apenas para insistir nessa tática. Alguns dizem que ora é dia da caça, ora do caçador, mas em MapleStory quem confiar demais poderá estar no espeto o tempo todo! Os guerreiros sofrem muito mais kill steals, pois precisam combater no mano a mano, enquanto magos, arqueiros e ladrões usualmente o evitam. Já os magos que forem inocentes pagarão pelo pecado de sua classe: por melhores intenções que demonstrem na frente de todos, os colegas guerreiros irão logo taxá-los de “furtadores de mortes”, porque é essa a imagem que se tem dos magos nos servidores! Isso é que é preconceito “racial”! Rezam as más línguas (não serei árbitro da questão) que somente 1 em cada 100 que “habitam” MapleStory “vale a amizade”.
Mais sujeira? Fraudadores tentarão vender mercadorias a um preço alto demais ou barganhar produtos na cara dura. Outros mais sofisticados tentarão pegar os mais novatos dizendo: “agora aperte TAB TAB SPACE ENTER para que algo bom aconteça…” Fazendo isso, o gamer simplesmente envia todos os seus itens para o solicitante! O pior é que muitos pensam que as guildas foram criadas pelos desenvolvedores com o exclusivo intuito de fazer “arrastões de kill steals”, isto quando a maioria duma guilda não se volta contra UM membro elegido como bode expiatório da vez, por causa de alguma antipatia que transcenda o jogo ou por conta de uma simples discussão: o conluio fará com que dezenas se unam contra o mesmo jogador! Todo jogo online tem suas ferramentas para coibir ou controlar ao máximo esse tipo de atitude covarde, porém os monitores ou Game Masters NÃO serão de grande ajuda aqui. Muitas vezes são omissos e coniventes, quando não são os MAIS BABACAS, imaturos e justamente os que mais pilham nas táticas teoricamente ilegais, assediando ou atormentando virtualmente os usuários mais indefesos. É mais provável que uma vítima de bullying e de fofoca infundada seja banida de um servidor do que um hacker!
Às vezes não se trata de má conduta deliberada, mas apenas do incômodo, do stress provocado por operações repetidas vindas de uma multidão de usuários, como quando você entra no mapa em que alguém está treinando e esse alguém manda a mensagem “cc plz”, que trocando em miúdos significa “change the channel, please!”, “caia fora!”. Se for um hacker, não irá pedir, irá apenas expulsá-lo!

A HIPOCRISIA DO “JOGO DE GRAÇA”
Por último, deslindaremos uma tática empresarial da dupla Wizet/Nexon para angariar lucros com seu produto que oficialmente não custa nada ao consumidor médio (não faço nenhuma acusação realmente séria; penso mesmo que faríamos o mesmo se estivéssemos no lugar deles, mas devemos servir um pouco de “bedéis da internet” e pensar pelos que não pensam):
Apesar de não ser como em World of Warcraft, que exige o pagamento de uma taxa mensal, a fonte de renda de MapleStory está em um expediente bem comum aos MMORPGs: os shops, as lojas, do game têm produtos cotados em moeda do mundo real.
Concordamos que, se há um derramamento de verdinhas em cima dessas compras “de mentirinha”, que servem apenas para incrementar o guerreiro que está do outro lado da tela, isso é um problema de quem paga, mas lembre-se que nem sempre quem paga é quem senta para jogar! Muitos dos jogadores, como dito, são crianças, pré-adolescentes, muitas vezes, como queiram, adultos que ainda não cresceram mentalmente. Pessoas sem renda, sustentadas pelos outros. E nem sempre o provedor (no caso, estou falando dos pais ou equivalentes) sabe qual está sendo o destino de seu dinheiro. A grana está sendo torrada para se comprar móveis num conto-de-fadas eletrônico, ou então num novo corte de cabelo poligonal, em bichinhos de estimação que jamais lamberão o dono e até em megafones para falar com todos de um mesmo canal, mesmo que não estejam na tela, quem sabe? O dinheiro que era para despesas escolares, por exemplo, acaba comido pelos bits e bytes! E reconhecemos que há parentes que sequer ligam para a questão, ou até incentivam seus filhos a efetuar tais gastos. Outras vezes, no entanto, o filho abre tanto o berreiro que o pai só lhe concede esse favor por achar que é a melhor maneira de calar o bico do menino. Isso está gerando mal-acostumados que serão os consumidores com voz ativa do amanhã: você gostaria que cada vez mais esse tipo de MMORPG monopolizasse o mercado, que cada vez mais as empresas se centrassem no desenvolvimento desses jogos “grátis” cheios de suvenires engana-trouxas dentro dos “mercados”?

Afora a questão ética, nem discutimos uma outra verdade: MapleStory perde totalmente a graça no quesito “competitividade”, uma vez que falar em esforço para obter personagens mais fortes fica fora de moda, se quem torra dinheiro pode comprar pontos de experiência e se tornar imbatível frente aos “usuários gratuitos”. Forma-se uma casta privilegiada, uma espécie de espelho da sociedade injusta do lado de fora, que um jogo eletrônico deveria combater ao invés de imitar! Como dito, não adianta se matar de apertar Control para tentar ser um dos melhores: só mesmo pagando em dólares! Imagine se no Mortal Kombat também fosse assim… É a velha história de que “só tem jogo se o dono da bola deixar”.

GRÁFICOS
Sem dúvida os monstros são o maior ponto positivo, praticamente unanimidade no público. São inumeráveis os tipos e dimensões das criaturas. Há até uma raça baseada em latinhas de Coca-Cola (que pagou pela publicidade, é claro…), pelo menos nos servidores coreanos. Os mais assíduos são provavelmente os cogumelos, em subtipos até complicados de elencar. Os fundos demonstram vida, embora as animações dos personagens em si cansem depois de certo período.

SOM
Os efeitos sonoros são absolutamente repetitivos. Os únicos que se salvam são os berros de morte dos monstros (quando uma cobra morre miando ao invés de sibilando, a isso chamamos criatividade!). A música seria capaz de recrear, emocionar e comover, se não tivesse que ser onipresente ou demasiadamente bobinha em alguns pontos (parece que o gamer acabou indo parar numa animação da Disney ou num passeio romântico no parque). Resulta disso que, mesmo que com 107 faixas, tem-se uma seleção muito modesta para cobrir todas as ambientações e os gamers preferirão jogar sem som.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não experimente se você não for do tipo easy-going, porque a massa idiótica irá transtornar sua cabecinha! Como defende um dos reviewers do GameFAQs, talvez fosse melhor dar uma volta no jardim de infância mais próximo. Ali seriam encontrados elementos de uma conduta mais ponderada em relação à vida e cidadãos mais respeitosos do que em qualquer mapa de MapleStory. Inclusive, melhores escritores (cc, plz!).
Mas lembrem-se, moçada: é só um jogo! E eu me diverti muito lendo e traduzindo tantas queixas… As conseqüências sociais que eu desbaratei acima não deixam de ser sérias, mas durante o game não custaria nada que alguns MMORPGistas não levassem situações que são constrangedoras para seu personagem tão a sério na vida fora da tela, a ponto de custar-lhes a saúde do coração ou qualquer outro mal do tipo!
PS 2022: Percebeu as semelhanças de MapleStory com um jogo bem mais famoso? Confira a análise de League of Legends para se deparar com basicamente as mesmas metacríticas vistas aqui, e até com estudos aprofundados sobre assédio virtual! Link: https://rafazardly.wordpress.com/2021/03/30/league-of-legends-entre-a-espada-e-a-parede-uma-analise-inusitada-para-quem-nunca-jogou-lol-de-alguem-que-nunca-jogou-lol/. Ou compre no formato livro em https://clubedeautores.com.br/livro/league-of-legends-entre-a-espada-e-a-parede.
Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo
Agradecimentos a cheeseball341, JF7X, Dark_Young_Link e Marioface5
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