keystone kapers (2600)

Atari 2600

Keystone Kapers

FICHA TÉCNICA

Developer: Activision

Publisher: Activision

Estilo: Ação > Plataforma

Data de Lançamento: 1983

NOTA

7.1

Este jogo é pra…

(  ) passar longe  (X) dar uma jogadinha de leve  (  ) dar uma boa jogada  (  ) jogar freneticamente  (  ) chamar a rua toda pra jogar  (X) um tipo específico de jogador. Qual? O saudosista/metido a gambé.  (  ) incógnita

Há algo estranhamente fascinante sobre as forças e constrangimentos da lei e perseguições policiais mostradas na TV. Qualquer vistoriada de 15 minutos nesse esse tipo de programa de qualidade assaz questionável flagra velhacos dementes o suficiente para fugirem de carros de polícia em tráfego urbano, como se não fossem ser capturados, ou então aquelas conversas dramáticas entre seqüestrador e tiras, por mais que saibamos que no fim o cara irá se arrepender e libertar os reféns, e que nenhuma promessa dos policiais será cumprida. Não é raro vermos tiozinhos bêbados na contra-mão, sonhando em levar a melhor contra todo o efetivo policial da cidade, ou mesmo bandidos correndo a pé com um saco de dinheiro nas costas tentando driblar helicópteros e viaturas espalhadas por todo o lugar… Coisas do gênero humano! Não importa o que os maus elementos tenham em mente, eles sempre acabam atrás das grades. É como uma lei não-escrita, em outros termos, uma fábula moral: por mais criativo que o malandro seja, ele não passa de um sujeito muito mais burro que o cidadão comum que respeita as leis e tem uma conduta impecável no dia-a-dia, afinal apodrecer no xilindró é uma conseqüência natural de quem tenta bancar o esperto, e sempre achamos engraçado que sempre haja tanta gente tentando subverter essa fatalidade tão óbvia! Se ao menos conhecêssemos gente assim… Mas parecem distantes da nossa realidade tão pacata e sensaborona…

Há um terreno, no entanto, em que nem sempre o final é feliz. Na realidade paralela conhecida como Keystone Kapers, a justiça se assenta exclusivamente na probabilidade. Você encarna o Oficial Kelly, sujeito muito conhecido de filmes e seriados pastelões americanos. Um cara muito mais competente e vivido do que qualquer dos seus coleguinhas devoradores de roscas de CSI, Bones e congêneres, com toda certeza. Assim que o sol nasce quadrado (ou se põe, a julgar pelos gráficos do horizonte, no jogo) numa bonita manhã (tarde) de domingo, um suspeito é notado pelos corredores do shopping. Então seus medos se confirmam: é Harry Hooligan, um ladrão tão clássico que até anda de camisetas preto-e-brancas listradas nas escassas estações em que está livre (entre uma detenção e outra), que está de novo à solta barbarizando no comércio! Sendo uma referência como guarda, está na hora de mostrar para as madames e equipes de TV que sua fama não é à toa! Sem armas de fogo, apenas um dificilmente enxergável cassetete, e muita disposição, chegou a hora de alcançar o criminoso e completar seu uniforme com algemas…

A perseguição (o feeling do game é tão maravilhoso que havia cartuchos nacionais em formato de detonador de dinamite, sem falar que a capa, acima, é a síntese perfeita da comicidade da situação do “Pega Ladrão!”) começa com Kelly na extremidade direita do primeiro andar do shopping. O assaltante foi inteligente o bastante para praticar suas ilicitudes bem longe, e se encontra no segundo andar, mas se locomove num ritmo que impossibilita que você o alcance até estar ao menos no terceiro andar, ou mesmo no terraço (nas fases mais avançadas ou se os obstáculos conseguirem prendê-lo e atrasá-lo). Por sorte, o oficial Kelly tem acesso a um radar super-moderno (na parte inferior da tela) que mostra toda a amplitude do lugar e a exata localização, em tempo real, de caça e caçador, através de cursores branco e preto, além da sinalização das escadas e elevadores. Propositalmente, os acessos aos outros andares estão em locais antitéticos, o que faz dessa perseguição um ziguezague insano, muitas vezes esquizofrênico, pois é pouco o contato com o infrator (o único ser humano da cena, exceto o homem-da-lei de azul, parecendo um guarda da rainha com aquele chapéu cúbico – era para ser cilíndrico, mas estamos no Atari!). Na realidade, o bandidão é mais lento que o protagonista bonzinho e uma vez que ele esteja visível na tela, e no mesmo pavimento, capturá-lo não será absolutamente um problema. A questão é como transpor as vicissitudes até chegar lá! Desviar de bolas, aviõezinhos, rádios e carrinhos de compra, seja pulando na hora adequada ou se abaixando, é vital para o sucesso da missão.

Conforme cada segundo passa (há um cronômetro no topo da tela) as chances de elevar sua pontuação vão minguando e, obviamente, se o cronômetro zerar, bau-bau, perde-se uma vida, representada por um ícone de chapéu também no topo da tela. E no calor da peleja de gato-e-rato vai ficar difícil apreciar a beleza pixelizada do cenário. As paredes uniformes têm um tom verde escuro, e como a visão é lateral é possível ver o teto cor-bronze que separa cada pavimento do shopping, de espessura fina. As escadas rolantes típicas estão nos cantos dos andares, e os elevadores azuis mais ou menos no centro (mas esperar por um deles pode ser uma péssima solução e custar muito caro). Se for o caso, o gamer chegará à vista privilegiada fornecida pelo terraço, de onde é possível ver a cidade em toda sua grandiosidade cinzenta de arranha-céus. Lembre-se: é 1983!

O mais charmoso em KK é que o jogo mostra apenas o que está em nossas vidas, sem tirar, pôr ou romancear. Não há OVNIs, monstrengos, travessias épicas de rios ou selvas (qualquer semelhança com outro clássico atariano da própria Activision é mera coincidência!)… Só um policial honesto fazendo seu trabalho e um bandido tentando o seu melhor para modificar o fim da história visto nos programinhas já citados. É isso mesmo: a realidade nua e crua (embora a bola de praia roxinha pareça uma gosma espacial, se olhar de certo ângulo!), sem efeitos especiais! O show da vida interativo. Um dos vídeo(game)s mais incríveis!

P.S.: Se você puder me ajudar a esclarecer uma dúvida de infância, mas que transcende todas as idades da madureza de um homem, gostaria de saber se o jogo tem um fim, pois eu sempre avançava até um estágio em que havia cada vez mais obstáculos e projéteis, e cada vez mais velozes, mas nunca passei por tais dificuldades incólume para saber se as fases se seguem infinitamente… Vai saber!

Agradecimentos a discoinferno84 (que consegue transformar análises técnicas de games de poucos bits em poesia!), Dragon9, Brak, eolsen, Psycho Penguim, Randy K Orton e Vertabreaker

Rafael de Araújo Aguiar

versão 2.0

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