“Sòmente em suas origens conheceram o grego e latim o estado representado pelo sânscrito.” “o acaso o tornou uma língua muito própria para esclarecer as outras num sem-número de casos.”
Aquilo a que estamos acostumados: o nascimento de uma ciência tardia: “os erros duma ciência que principia constituem uma imagem ampliada daqueles que cometem os indivíduos empenhados nas primeiras pesquisas científicas”
As duas metades da minha laranja: uma azeda, a outra doce até demais. O sumo literário na ponta da… língua trôpega.
Existe a História dos Idiotas e a dos Gênios. Cada um desses dois tipos é idêntico ao longo das eras.
“acredita-se, de modo geral, que um idioma se altere mais ràpidamente quando não exista a escrita: nada mais falso.”
“Gaston Deschamps não dizia de Berthelot <que êle preservara o francês da ruína> porque se opusera à reforma ortográfica?”
“Na maioria dos indivíduos, as impressões visuais são mais nítidas e mais duradouras que as impressões acústicas; dessarte, êles se apegam, de preferência, às primeiras. A imagem gráfica acaba por impor-se à custa do som.” [grifo meu]
Mnemonia, a doença da memória que esquece do que tinha que se lembrar e só lembra o que tinha que esquecer.
P. 37 – “§4. CAUSAS DO DESACÔRDO ENTRE A GRAFIA E A PRONÚNCIA.
(…)
Em primeiro lugar, a língua evolui sem cessar, ao passo que a escrita tende a permanecer imóvel. Segue-se que a grafia acaba por não mais corresponder àquilo que deve representar. Uma notação, coerente num momento dado, será absurda um século mais tarde. Durante certo tempo, modifica-se o signo gráfico para conformá-lo às mudanças de pronúncia, mas depois se renuncia a isso. Foi o que aconteceu, em francês, no tocante a oi.
Pronunciava-se: Escrevia-se:
no século XI rei, lei rei, lei
XIII roi, loi roi, loi
XIV roè, loè roi, loi
[fosso dos anos]
XIX rwa, lwa roi, loi
(…) até a 2ª época, levaram-se em conta as mudanças ocorridas na pronúncia; a uma etapa da história da língua corresponde uma etapa na da grafia. Mas a partir do séc. XIV, a escrita permaneceu estacionária, ao passo que a língua prosseguia sua evolução, e desde êsse momento houve um desacôrdo sempre mais grave entre ela e sua ortografia. Por fim, (…) a expressão gráfica oi assumiu um valor estranho aos elementos de que se formara. (…) por que escrever mais (<mas>) e fait (<fato>) quando pronunciamos mè e fè? Por que o e tem amiúde em francês o valor de s [école; réponse; démarche…]? Porque conservamos grafias que não têm mais razão de ser. (…) os franceses pronunciam essuyer [secar], éveyer, mouyer como essuyer, nettoyer [arrumar] [palavras dicionarizadas atuais]; mas continuamos a escrever [por outro lado] éveiller [despertar], mouiller [molhar].”
Professor Dominus Nick pArdAL!
“quando um povo toma emprestado a outro seu alfabeto, acontece freqüentemente que os recursos dêsse gráfico não se prestam adequadamente à sua nova função; (…) por ex., utilizar-se-ão duas letras para designar um só som. (…) O inglês da Id. Média possuía um e fechado (p. ex., em sed, <semente>) e um e aberto (p. ex., em led, <conduzir>): não oferecendo o alfabeto signos distintos para os dois sons, cuidou-se de escrever seed e lead.” “introduziu-se um d na palavra francesa poids (<pêso>), como se ela viesse do latim pondus, quando na realidade vem de pensum. (…) Às vêzes, a causa nos escapa; certas excentricidades não têm sequer a desculpa da etimologia. Por que se escreve em alemão thun em vez de tun? (…) existe um grande número de palavras que jamais receberam o <h> (Tugend, Tisch etc).”
“O francês atual não possui consoantes duplas, salvo nos antigos futuros mourrai, courrai: não obstante, nossa ortografia está repleta de consoantes duplas ilegítimas (bourru, sottise, souffrir etc.)”
“encontra-se em inglês primeiramente hwat, hweel etc., depois what, wheel etc”
“a palavra francesa oiseau, onde nenhum dos sons da palavra falada (wazo) é representado pelo seu signo próprio: nada resta da imagem da língua.”
P. 40: “Nessa época, a regra: <diante do h aspirado não se fazem a ligação e a elisão [supressão vocálica]> não existe mais, a menos que se dê tal nome a essa coisa que não é um som, mas diante da qual não se fazem nem a ligação nem a elisão. Trata-se, pois, de um círculo vicioso, e o h não passa de um ser fictício, nascido da escrita.” [grifo meu]
“Deve-se pronunciar gageure com ö ou ü? Uns respondem: gazör/gajor, visto que heure se pronuncia ör. Outros dizem: não, e sim gazür/gajir, pois ge equivale a z/j, em geôle, por exemplo. Vão debate! A verdadeira questão é etimológica (…): gajir é a única pronúncia justificada; gajor é uma pronúncia devida ùnicamente ao equívoco da escrita.”
“para o nome de família Lefèvre (do latim faber) havia 2 grafias, uma popular e simples, Lefèvre [idêntica], outra erudita e etimológica, Lefèbvre. Graças à confusão de v e u na escrita antiga, Lefèbvre foi lida Lefébure, com um b que jamais existiu realmente na palavra, e um u proveniente de um equívoco.”
“É provável que tais deformações se tornem sempre mais freqüentes e que se pronunciem cada vez mais as letras inúteis. Em Paris, já se diz: sept femmes, fazendo soar o t; Darmesteter prevê o dia em que se pronunciarão até mesmo as duas letras finais de vingt, verdadeira monstruosidade ortográfica.”
“Nós nos ateremos à terminologia corrente, se bem que ela seja imperfeita ou incorreta em vários pontos: termos como guturais, palatais, dentais, líquidos etc., são todos mais ou menos ilógicos.”
“línguas há em que é impossível dizer <sentar-se ao sol>.”
“o valor de um plural português ou francês não corresponde ao de um plural sânscrito: o sânscrito possui três números em lugar de dois (meus olhos, minhas orelhas, meus braços, minhas pernas etc. estariam no dual)” [grifo meu]
“O francês diz indiferentemente louer (une maison) e o português alugar, para significar dar ou tomar em aluguel, enquanto o alemão emprega 2 têrmos mieten e vermieten”
“A distinção dos tempos, que nos é tão familiar, é estranha a certas línguas; o hebraico não conhece sequer a distinção, tão fundamental, entre o passado, o presente e o futuro. O protogermânico não tem forma própria para o futuro”
“As línguas eslavas distinguem regularmente 2 aspectos do verbo: o perfectivo representa a ação na sua totalidade como um ponto, fora de todo devir; o imperfectivo mostra a ação no seu desenvolvimento e na linha do tempo.” [grifos meus]
“a língua é uma forma e não uma substância. Nunca nos compenetraremos bastante dessa verdade”
“Ver-se-ia, p.ex., que o inglês concede um lugar muito mais considerável ao imotivado que o alemão; mas o tipo do ultralexicológico [menos amarrado] é o chinês, ao passo que o indo-europeu e o sânscrito são espécimes do ultragramatical.” [grifos meus]
“o francês se caracteriza, em relação ao latim, entre outras coisas, por um enorme acréscimo do arbitrário: enquanto em latim inimīcus lembra in- e amīcus e se motiva por êles, em francês ennemi não se motiva por nada; ingressou no arbitrário absoluto, que é, aliás, a condição essencial do signo lingüístico.” [grifos meus]
encore vem do latim hanc horam;
entier do lat. integer (português inta(c)to);
enfant infans, aquele que não fala (pref. in-)¹
enceinte incincta, sem cintura
¹ Já que na verdade criança seria puella.
DEFININDO O BÊ-Á-BÁ: “desinência, vale dizer, a característica flexional ou elemento variável de fim de palavra, que distingue as formas de um paradigma nominal ou verbal.” [grifo meu] O estudo das desinências leva aos radicais. O extremo do radical (irredutível) chama-se raiz.
A raiz do hebraico para o verbo “matar” é que provavelmente deu azo ao aparecimento de Ktulu, deus da morte.
Pp. 218-9: definições de prefixo e sufixo. “O prefixo precede a parte da palavra reconhecida como radical. O sufixo é o elemento que se junta à raiz para dela fazer um radical ou a um primeiro radical para fazê-lo de 2º grau. O prefixo está melhor delimitado porque se destaca mais fàcilmente do conjunto da palavra. Acrescentemos que diversos prefixos funcionam como palavras independentes. Coisa muito diversa acontece com o sufixo; o radical obtido pela supressão dêsse elemento é uma palavra incompleta; e, por outro lado, o sufixo mesmo não tem existência autônoma. (…) antes de qualquer comparação com outras formas, a pessoa que fala sabe onde colocar limite entre o prefixo e o que se lhe segue. O mesmo não acontece com o fim da palavra.”
Não existe uma ciência da etimologia das palavras.
“Acrescentemos ainda que cada povo crê na superioridade do seu idioma. Um homem que fala outra língua é facilmente considerado como incapaz de falar; assim, a palavra grega bárbaros parece ter significado ‘tartamudo’ e estar aparentado (sic) ao latim balbus; em russo, os alemães são chamados de Nyêmtsy, isto é, <os mudos>.”
PARA APROFUNDAMENTO
Trombetti – L’unita d’origine del linguaggio
(seria irônico não encontrar este livro em Português)
Adolphe Pictet – As Origens Indo-Européias
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