PlayStation

PaRappa The Rapper
F I C H A T É C N I C A
Developer NanaOn-Sha
Publisher Sony
Estilo Música
Datas de Lançamento 06/12/96 (JP); 09/97 (EUR); 31/10/97 (EUA); 09/07/98 (JP-PlayStation The Best); 22/11/01 (JP-PSOne Books)
NOTA
8.2
Este jogo é pra…
( ) passar longe (X) dar uma jogadinha de leve ( ) dar uma boa jogada ( ) jogar freneticamente ( ) chamar a rua toda pra jogar (X) um tipo específico de jogador. Qual? Rappers pensativos. ( ) incógnita
PaRappa the Rapper é um game incompreendido. Na superfície, parece só um precoce jogo de música simples e breve. Você é PaRappa, um cão púbere descolado cuja estrela diz que ele será um rapper famoso um dia. Os gráficos de desenho animado à laSouth Park, com cenários 3D e personagens estilo Paper Mario, casam perfeitamente com o estilo despojado da gameplay e da storyline. Para os velhinhos, a gameplay vai lembrar Simon, dos anos 80. Para os novatos, bem de longe, um Guitar Hero. Simon era um fliperama cheio de efeitos de luz sincrônicos com sons que obrigavam o jogador a acompanhar o ritmo das batidas das caixas acústicas e piscadas da tela. Em PaRappa a única coisa que muda é que ao invés de uma máquina de grandes proporções estar-se-á de frente para seu televisor e um módico PlayStation. Os comandos são via joystick, numa era pré-tapetes de dança, e eu desconheço se existe compatibilidade com esse tipo de pad mais “queimador de calorias”. O que eu sei é que, via controle standard, você usa os quatro botões básicos mais dois dos botões L e R. Como todo rapper, PaRappa é fã dum duelo com gente (mais) convencida (que ele mesmo). A diversão é instantânea e quem não tiver sérios problemas de coordenação poderá finalizar o modo estória em questão de uma tarde. O gamer comum o fará e logo esquecerá o produto numa prateleira ou gaveta. Porque, como eu disse, a princípio o título parece só mais uma daquelas esquisitices japonesas que são moda por algum tempo e depois passam como as bolas de palha na ventania do deserto – mesmo tendo influenciado tantos music sim games de sucesso na posteridade como Dance Dance Revolution, Bust A Groove, Um Jammer Lammy (continuação do próprio) e outros, PRR é tratado até hoje como um acontecimento de segundo plano, um azarão na biblioteca da Sony.
Nem preciso dizer que essas pessoas que desprezam o potencial de PaRappa O Rapper estão redondamente enganadas. PRR ensina uma chusma de lições sobre a vida, o universo e tudo o mais. Como a discografia do Abba, este disco está repleto de referências profundas debaixo da carapuça de uma produção pop grudenta, infantil e despretensiosa. Quem já assistiu Vila Sésamo também sabe de que tipo de fachada filosófica eu estou falando.

PRR tem todos os ingredientes de um jogo pós-moderno. É uma mídia consciente do seu poder de comunicação e do próprio formato em que funciona que brinca o tempo todo com a idéia de ficção e fuga da realidade, nunca se levando a sério um momento sequer. Onde muitos jogos tentam criar um universo auto-sustentável, um mini-mundo com regras próprias, uma simulação convincente de leis morais e físicas, ainda que fabulosas, PaRappa dá asas à quebra de paradigmas e ao niilismo. O máximo de coerência que há em PRR é o liame do enredo; mas mesmo ele é surreal demais para ser comparado com as grandes meta-narrativas da regrada modernidade. Fé em si mesmo é o princípio fundamental do mundo excepcional do simpático cão PaRappa. Por mais difícil que seja levar uma vida, o mantra x-fileano “I gotta believe [Preciso acreditar]” é o principal revitalizador da vontade do personagem quando ela recebe duros golpes e ameaça se esfacelar.
Na cena de abertura, PaRappa e um amigo estão assistindo um filme. Um super-herói aparece e salva o dia na cidade de Townsville… Discutindo as façanhas do personagem fictício, PaRappa revela seu desejo de ter um alter ego tão poderoso e impressionável quanto o do retratado no filme. Do alto de sua ingenuidade, o cachorro pensa que ser super-herói se confunde com ter habilidades fora do comum e que a violência pode resolver todos os problemas. Quando alguns grosseirões do bairro começam a assediar sua namorada Sunny Funny (uma gracinha de flor!), PaRappa sente arder esse desejo de superioridade ainda mais. A primeira lição do aprendiz de Jedi será entender que nem tudo é questão de superpoderes ou técnicas do além, mas basicamente de “paz interior e equilíbrio da mente” (o que é isso, algum prelúdio de Kick-Ass?). PaRappa vai parar no dojo do Chop Chop Master Onion Head [Mestre Corta-Corta Cabeça de Cebola]. Apesar do nome exótico, ele não ensina culinária (essa aula fica para outro capítulo do jogo), mas sim a arte milenar do kung fu.
PaRappa anda caidaço e precisa de um boost na auto-estima, e o kung fu (musicado) vai ajudar bastante nisso. O gamer deve embarcar no espírito da narrativa e passar a ACREDITAR nas suas habilidades. Mestre Cebolão é capaz de ensinar que não é a força física que realmente importa, mas o fortalecer o espírito, deixando-o forte como uma parede de tijolos frente às vicissitudes da vida. Onion foi, de qualquer maneira, um encontro muito efêmero na vida de PaRappa, e não é do dia para a noite, ou em 5 minutos, que se amadurece. O pontapé inicial na jornada de auto-descoberta já foi dado, mas PaRappa é instado a sair pelo mundo procurando novos mestres a fim de completar sua formação…

Mesmo sendo uma pessoa melhor que antes, PaRappa ainda é um ser ganancioso e tão materialista quanto seus pares. Por enquanto, ele ainda acha de fulcral importância tirar uma licença de motorista só para impressionar sua gata. E como ninguém, a essa altura, consegue demovê-lo da idéia de que essa postura não o levará nunca à essência das coisas e à felicidade, é hora de acompanharmos o cão músico à auto-escola. A inspetora Mooselini está à espera. Mooselini – embora claramente inspirada no ditador italiano da década de 30 – é um exemplo primoroso de como PaRappa deveria valorizar menos as aparências dos objetos. Um pouco tirânica, é verdade, essa segunda mestra na vida de PaRappa dá muitas broncas, mas todas pensando no bem do seu aluno. No final de sua música ao volante, o protagonista já terá inclusive aprendido a dirigir – que mágico! É só acreditar e os sonhos se tornam realidade…
Mas a estrada da sabedoria é salpicada de percalços. Como um motorista recém-titulado, PaRappa confia um pouco demais e acaba batendo o veículo, que nem era seu. O jeito será encontrar um emprego temporário para pagar as despesas do conserto, acalmando o pai de PaRappa. O próximo guru, Master Flea Swallow [O Engolidor de Pulgas], não por acaso é vendedor num Mercado das Pulgas, o lugar perfeito para arrecadar uma grana rápida. Mas de nada vale se tornar cobiçoso: em primeiro plano está o enriquecimento espiritual, lembrem-se! Esse zen-budista que puxa para uma levada mais reggae fará muito mais por PaRappa do que engordar sua raquítica carteira.

Hora de seguir adiante, com mais bagagem nas costas e o dano reparado, no carro e também na alma. Chega o dia do aniversário de Sunny Funny. Mas o rival amoroso de PaRappa, talvez não mais cavalheiro do que ele, mas certamente mais abonado, presenteia a flor com um bolo enorme de confeitaria. PaRappa se corrói todo por dentro, procurando fazer melhor, e vai atrás de Cheep Cheep Cooking Chicken, a Galinha Cozinheira, para a qual Ana Maria Braga cedeu seus direitos de imagem. A receita para o bolo mais doce e carinhoso da face da terra consiste no seguinte: muito rap e ritmo. Pode não ser um bolo com tanto glacê nem tão enorme quanto esses pré-fabricados de padaria, mas foi feito com amor. O presente perfeito para uma namorada!
PaRappa ainda não é o camarada astuto que talvez pense que seja. Ainda não. Não tendo aplicado o princípio da parcimônia a todos os seus atos, PaRappa sucumbiu à gula e esqueceu-se de guardar um pouco do espaço no estômago. O tal bolo de aniversário de Sunny Funny foi quase todo parar na sua barriga, produzindo os típicos efeitos colaterais indesejáveis de uma sobremesa apreciada em excesso. Se é verdade que saco vazio não pára em pé, saco cheio tem de se aliviar no banheiro! Por alguma estranha razão, só tem UM BANHEIRO disponível na cidade e todos os antigos professores de PaRappa também estão querendo usar a toalete! Como todos são sujeitos honrados, decidirão a sorte numa competição musical justa: o vencedor poderá sentar na privada e fazer suas necessidades. Master Onion Head, Mooselini, Flea Swallow e Cheep Cheep estão todos na tela na fase mais difícil até aqui. A derrota dos mestres é a prova de que fizeram um bom trabalho, pois o objetivo de todo professor é, no fundo, que seu discípulo o supere um dia. PaRappa conseguiu – e nós agradecemos o fato de ter bom-ar no banheiro, dele ter trancado a porta e nos deixado do lado de fora! Não há mais nada que esses personagens pudessem ensinar a PaRappa, portanto, a que ele não tivesse condições de chegar por conta própria.

Mas antes do real show da vida e de colher os frutos das sementes que plantou, um último teste de fibra para PaRappa (PaRappaRappaRaêêê, diria João Kleber): um rapper que é rapper passa pelo vestibular que no caso dessa subcultura é um duelo numa casa de shows lotada. O frio na barriga é natural e inevitável, mas o cão, cada vez mais mentalmente evoluído, precisa superar essa barreira para se tornar um artista completo! Quando personagem e gamer acham que não vai dar é que o mantra “I gotta believe” faz-se ouvir outra vez. Os amigos e ex-professores estão na platéia para incentivar. Não os decepcione! Não dá mais para voltar atrás: uma carreira de sucesso está começando!…
PaRappa The Rapper ensina como a vida está cheia de obstáculos e contratempos. Não é difícil ter lapsos de atenção e reparar só no verniz, nos esquecermos de nossos anseios verdadeiros no meio de tanto engodo e besteira, pegar desvios promissores que só nos deixam como retardatários na prova da existência… Mas sempre há tempo para se recuperar no maior grande prêmio de todos! É aí que lembramos das promessas que fizemos quando éramos mais jovens, respiramos fundo e conseguimos forças de sabe-se lá onde. Isso é porque “acreditamos”. E dane-se se no final vem a morte, a viagem até ela será pura curtição, com muitos encontros sensacionais. Claro que no limitado tempo em que estamos aqui seria burrice não se arriscar em PaRappa The Rapper, de PlayStation, pelo menos uma vez!
Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo e um tanto apaixonado pela forma velha de se programar jogos
Lista de agradecimentos
falsehead, Shotgunnova, YankeeJTC, YSF do GameFAQs:
versão 2 – 2013; 2026.
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