f355 challenge: passione rossa (dc)

Dreamcast

F355 Challenge:

Passione Rossa

F I C H A     T É C N I C A

Developer  Sega AM2

Publishers Sega / Acclaim

Estilo Corrida > Simulador > Turismo > First-Person

Datas de Lançamento 03/08/00 (JP); 19/09/00 (EUA), 20/10/00 (EUR)

NOTA

8.2

Este jogo é pra…

(  ) passar longe  (X) dar uma jogadinha de leve  (X) dar uma boa jogada  (  ) jogar freneticamente  (X) chamar a rua toda pra jogar  (X) um tipo específico de jogador. Qual? O excessivamente realista; idólatras da Ferrari.  (X) incógnita

Realismo: essa é a praia de F355 Challenge. Nisso, ele se mostra supremo. Mesmo a jogabilidade com MR cars com pneus Simulation em Gran Turismo 2 passa longe da sensação de veridicidade propiciada por este título de segunda geração de Dreamcast. Ao longo da matéria, explorarei bastante os contrastes entre F355 e Gran Turismo 2, aliás, já que este último é considerado até hoje o rei do gênero, pelo menos enquanto a competição se limitar a PlayStation1 e Dreamcast.

A direção é sagaz, sensitiva e exigente ao mesmo tempo. Reconhecidamente, não é um estilo de pilotagem universal. Não para quem prefere se aposentar da preocupação com o motor, o painel, o trânsito e a estrada quando está em casa esparramado no sofá jogando videogame! Quanto à aderência em relação à pista, esta apresenta o cúmulo do realismo, com mais feeling e sons corretos do que qualquer outro concorrente mais velho. A punição por entrar rápido nas curvas também será inaudita mesmo dentro do gênero Simulador.

A inteligência artificial é moderadamente boa. Seria excepcional, a julgar tão-somente pelo nível de desafio que proporciona. Só que os métodos utilizados pela CPU para se dar bem são considerados “cheating”, e dos mais baratos, porque a física das Ferraris rivais é totalmente inimitável; é como se você estivesse em outra dimensão em relação a eles, e ainda assim estivessem disputando um racha no mesmo espaço! Por isso é que o quesito da IA perde pontos. Quando se esbarra na CPU, impedindo eficazmente sua ultrapassagem, vamos dizer, pelo lado esquerdo, pode acontecer um “efeito de teletransporte” do computador para o lado direito. O carro não estava na tela, o que não torna a falha tão grotesca e explícita, mas ele estará manobrando pela direita muito antes do que seria factível logo após receber uma fechada do lado contrário! Outra coisa que a CPU adora fazer é correr pelo cascalho e pela grama sem perder velocidade. Quanto a você, é melhor se ater ao asfalto!

Nos replays, uma importante ferramenta de jogo no que tange a corredores perfeccionistas, F355 não consegue fazer frente ao seu arqui-inimigo Gran Turismo 2. Há 2 tipos de visualizações de replay em FC:PR: as reprises editadas visíveis imediatamente após a corrida, que mostram o cenário e outros carros além do seu, mas sem som ou a habilidade de trocar de câmera; e as repetições estilo “director’s cut”, com autonomia ligeiramente maior, mas ainda insatisfatória. Estes replays especiais são passíveis de salvar no memory card e são contempláveis de vários ângulos, só que só mostram a volta mais rápida e cortam o background, deixando seu carro como que flutuante num grande abismo sideral ou buraco negro (poético!), despido mesmo da companhia das outras Ferraris 355.

Cena rara: acostume-se a não poder ver seu carro durante as corridas, já que F355 é em primeira pessoa!

Como de praxe, escolhe-se entre câmbios manual e automático; e iniciantes contam com “funções assistentes” para não comer poeira de forma tão humilhante logo de cara (o ideal é que esses recursos só permaneçam ligados enquanto a transição para uma pilotagem mais agressiva e profissional ainda se fizer necessária): Intelligent Brake System [sistema de freios inteligentes], Stability Control [controle de estabilidade], Traction Control [controle de tração] e Anti-Lock Brake System [sistema de freio anti-trava]. Resta ainda a opção do Practice: corre-se sozinho na pista selecionada e o “traçado ideal” é colocado em display para ser imitado e dar noções mais pragmáticas aos neófitos. As escolhas de modos competitivos se restringem a Arcade e League modes.

F Challenge é consideravelmente desafiante para boa parcela da “população gamística”, digamos assim, mas haverá um limite para isso e também aquela nata de hardcore racers que já está acostumada à precisão nos controles que esse gênero requer, que salivará pedindo mais, sem poder encontrar essa sobremesa neste GD. Um exemplo seria poder controlar, conforme se vencem mais e mais grandes prêmios, carros cada vez menos potentes e mais duros de volante, o que inexiste aqui (na realidade todo jogo de corrida que já conheci funciona pelo princípio exatamente inverso, o que faz dos racers mais difíceis na primeira fase do que na última, ao contrário de jogos Plataforma!). Não tem como regular mesmo a dificuldade dos oponentes via menu ou qualquer nivelamento do tipo. E, na contramão, a faceta dos superpoderes metafísicos da CPU pode ser demais para um iniciante tolerar por muito tempo. Esse “abismo” entre o nível de desafio para um principiante e um veterano não será estreitado no que depender das próprias mecânicas de jogo, uma vez que o expediente de “analisar a própria performance via replays” resta prejudicada devido à pobreza desta última opção. Aprender com os erros terá de ser uma operação bem mais direta, ao vivo e a cores…

Não quero insinuar com as admoestações acima que os controles sejam reprováveis. Conduzir uma Ferrari F355 ficou mais divertido do que a encomenda, ainda que com o controle do Dreamcast, objeto de muitas reclamações. Mas quem procura algo mais intenso descartará os botões R e L na hora de regular freio e acelerador, preferindo um acessório do tipo volante, como o manche dos Arcades. Duas coisas que ficaram igualmente faltando para que a jogabilidade fosse perfeita são uma visão externa – aqui, só se vêem as pistas de dentro da cabine – e a marcha à ré, que por incrível que pareça, dada a complexidade deste jogo, não é executável! Não tão grave, mas ainda na minha cartilha de desejos de implementação, é o sistema de colisões aquém do “ideal”, embora seja o mais profundo já testemunhado em jogos até 2001. Gran Turismo apanha nas colisões para F355, sem sombra de dúvida. Só acho uma pena as Ferraris não amassarem, o que teria sido matador (de qualquer modo, duvido que a marca permitiria que a Sega fizesse esse pecado com seus lendários modelos)!

Por falar em Gran Turismo, a maior realização em jogos de corrida que eu tive a oportunidade de conhecer, o que me encanta nesta série fantástica presente apenas no hardware da Sony, concorrente da Sega, é sua capacidade de instigar a fantasia do jogador ao máximo e de presenteá-lo com alguns dos “brindes” mais luxuosos do capitalista planeta Terra, sem que para isso ninguém precisasse gastar nada (a rigor, nada além do próprio CD! Se muito, além disso um dual shock…). Essa sensação onírica está ausente em F355, por razões que posso arriscar determinar. Os limites de customização são bem estreitos, enfraquecendo o vínculo de pertencimento entre piloto e carro. Além do mais, o fato de todos os outros carros serem que nem o seu carro torna a incrível faceta de estar dirigindo uma Ferrari em algo mais banal (jogadores de GT e GT2 no PlayOne se sentiam finalmente aptos a iniciar suas existências bilionárias como colecionadores de modelos invocados, numa wishlist que era uma fila praticamente interminável de belezocas, e isso era sensacional, ainda que eu tenha passado muito mais tempo observando meu vizinho jogar do que propriamente jogando eu mesmo). Sem um modo progressivo, com arrecadação de dinheiro para “formar sua frota”, necessidade de retirar suas licenças antes de começar a competir, etc., a sobrevida de F355 é ridícula se comparada ao clássico Gran Turismo. Apenas uma corrida de exibição e uma liga com certo número de etapas não são suficientes para apascentar nossas almas velocistas e furiosas!

Challenge consegue manter a fluidez de quase 60 frames por segundo durante todo o tempo, até no multiplayer. E, não obstante, como você poderá conferir pelas fotos, a variação nos visuais é quase nula, exceto por formações de nuvens no horizonte e o entardecer, o mais belo que o game tem a oferecer.

São muito menos pistas que em Gran Turismo 2, fechando o ciclo de comparações, se bem que elas são muitíssimo bem-feitas e réplicas de circuitos reais, por exemplo Monza, Spa e Laguna Seca. Desafio da Ferrari 355: Paixão Vermelha [sou bom em italiano, mané!] é um ótimo jogo, mas talvez um pouco descarnado. Para uma experiência muito mais desligada do realismo e das imposições draconianas da Física, favor caçar outro grande título de Dreamcast, Metropolis Street Racer!

Rafael de Araújo Aguiar é sociólogo e um tanto apaixonado pela forma velha de se programar jogos

Lista de agradecimentos

Mr P, Kane, Dr Citan do gamefaqs

mobygames.com

versão 2 – 2013; 2025.

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