granada (gen & x68)

REVIEW N° 1087 DO 0LDBUTG8LD

Por Rafael “Cila” Aguiar

Genesis (Mega Drive) & Sharp X68000

Granada

F I C H A   T É C N I C A

Developer Wolf Team

Publishers Wolf Team [Telenet Japan] / Renovation (GEN, JP)

Estilos Shoot ‘em up > top-down / Estratégia em tempo real / Cyber-punk

Datas de Lançamento

X68 – 20/04/90 (JP)

GEN – 16/11/90 (JP), 12/90 (EUA)

NOTA (Este escore é uma média dos principais portais de games na web e revistas antigas quando for o caso, e também engloba a opinião dos gamers visitantes, além da crítica especializada; não necessariamente reflete meu ponto de vista.)

9 (X68)

8.1 (GEN)

E S T E   J O G O   É   P R A . . .
(   ) passar longe(   ) dar uma jogadinha de leve
(X) dar uma boa jogada(X) jogar freneticamente
(   ) chamar a rua toda pra jogar(   ) uma incógnita
(X) um tipo específico de jogador Quem… Curte não-linearidade em jogos de tiro, confusão e explosão, mas com muito uso da razão!Quem jogar este também poderá gostar de:
Guardian Force (ARC/SAT)
Ikaruga (AND/ARC/DC/GC/PC/PS4/SWI/360)
Jackal (ARC/NES/ZX81)
Psikyo Shooting Stars Alpha & Bravo (SWI)
Ranger X (GEN)
Thunder Force II (GEN)    
FAIXA DE VIDA ÚTIL ESTIMADA

 10 a 20h

Dos vários Arcus que os inseriram no mapa à franquia Tales of… (da Namco, sublicenciada para eles) de tempos mais recentes, RPGs sempre foram a força-motriz do Wolf Team. Mas houve um tempo em que esse estúdio, que nasceu como uma mera salinha dentro da publisher nipônica Telenet Japan, se aventurava em jogos de ação frenética 2D 16-bit e já tratava de roubar a atenção, ainda que num contexto indie, deixando as softhouses concorrentes salivando. Granada, ganhando vida no começo de uma nova década que transformaria o jeito de se encarar os jogos de videogame, foi como que obliterado pelo hype de outros shooters do Mega Drive, sem falar que ocidentais não conhecem o X68000, computador caseiro para jogos. Por mais obscuro que esse lançamento tenha sido, ele foi crucial na história do Wolf Team e, particularmente, na carreira de seu principal designer, Toshio Toyota.

Um ano antes, apenas, o WT já havia se arriscado no mesmo gênero, com um side-scrolling chamado Mid-Garts; mas tinham muito o que calibrar àquela altura, uma vez que esse título beira o injogável! Havia a noção, no fim dos 80, de que PCs não eram a plataforma ideal para action-oriented games. Esse estereótipo, entretanto, seria duramente atacado graças aos êxitos de mercado do Sharp X68000, proporcionando um belo equipamento para conversões semi-perfeitas de Arcades, uma delas, por sinal, o renomado Thunder Force II.

A maior parte do público que conhece Granada tem ciência apenas do cartucho de Mega Drive/Genesis. Mas o VERDADEIRO Granada nunca saiu do solo japonês. O X68000 possui especificações superiores ao 16 bits da Sega, e esta obra é uma prova consistente do fato. Se o shooter fan já endeusa Granada antes de pôr as mãos no “protótipo”, espere só até conferi-lo em seu hardware de origem!

A tradução é bem porcaria… mas quem liga?

Você é um soldado solitário chamado Leon que devastará o mundo dentro de seu tanque multi-equipado do tamanho de uma casa. Na essência, está havendo uma guerra entre duas facções, e nenhuma delas é de mocinhos, e é aí que você entra como o justiceiro da porra toda! No Genesis, telas estáticas com legendas contam um pouco do enredo, mas no X68 cutscenes (seqüências animadas) inteiras farão este favor… Enfim, isso aqui é guerra, então esqueça aquela coisa de Camp Granada, musiquinha horrível e sem-graça dum tal de Allan Sherman! Nem perca seu tempo ouvindo o bagulho no YouTube…

Por algum motivo, o manual de instruções chama seu tanque, o próprio Granada que dá nome ao jogo, de “Hypertek-Cannon Tank”. Isso quer dizer: absolutamente nada – mas achamos legal! Os menus in-game ainda chamam a arma-protagonista de “Ghost of Soldiers” e “God of the African Continent”, mas esses apelidos são igualmente insólitos: não vejo indício deste tanque passando pelo continente africano, muito menos se tornando uma deidade local; e, até onde eu sei, não existe isso de fantasma de soldados. Cof, cof, paremos de perder tempo com lendas urbanas sci-fi e testemos de uma vez por todas o que o tanque possante Granada realmente pode fazer!

SISTEMA DE JOGO

Você tem à disposição uma perspectiva olho-de-pássaro e mobilidade 100% livre (para uma interface bidimensional, isto é) pelo mapa da fase. Seu tanque anda em oito direções e atira para virtualmente qualquer lado da tela. Os dois tiros-padrão são o fraco, rápido e infinito, estilo machine gun, e o charge shot, tiro carregado (16 vezes mais potente que o primeiro, e também de munição ilimitada, cujo único ônus é demorar a carregar). O forte do game está no level design primoroso e bastante original. O tema de cada estágio realmente “interage” com o jogador, no sentido em que os obstáculos que ele encarará estão cem por cento relacionados com o terreno, e cada nível é bastante diferente de todos os demais. Os inimigos também não são meros soldados ou máquinas diabólicas que repetem seu padrão de ataque e variam no máximo nas cores: estão completamente integrados ao seu “ecossistema” e só existem em cada ambiente específico. Todo shooter tem a fama de ser ação acéfala, mas em Granada é necessário estudar os padrões de ataque e pensar na ordem do que se vai fazer olhando o radar ou mapa no canto inferior direito da tela. Há inúmeras estruturas labirínticas para confundir e iludir o jogador.

A própria física está em harmonia com o terreno, então pilotar o tanque na terra ou no concreto, em florestas e sobre rios será sentido como diferente e único. A cada fase as dificuldades aumentam e o número de inimigos e tiros atravessando a tela só se multiplica. Você controla a trajetória de seu tanque e a direção de seus tiros simultaneamente com o direcional. Por mais confuso e anti-intuitivo que pareça, é fácil de pegar o jeito, e em poucos minutos será impensável para o jogador qualquer sistema de jogo alternativo! Tem até um jeito de travar sua mira num vetor específico, bastando segurar o B (do controle do Genesis) enquanto estiver mirando na direção desejada, enquanto seu tanque pode seguir para qualquer outro sentido.

Em cada estágio, sua missão primária é destruir um determinado número de alvos assinalados como pontos vermelhos no radar. Havia potencial para um verdadeiro desastre na escolha dessa fórmula – o de um shooting em que se perambula tediosamente por uma fase esvaziada de desafios e de estímulos, o maior problema com as fases de perspectiva top-down do consagrado porém falhado Thunder Force II. Mas o problema de TF2 é que o foco estava demais na memorização dos locais que se tinha de visitar para destruir, e de menos na ação e carnificina em si! Não existe isso em Granada: já dão a faca e o queijo ao jogador, afinal ele tem um mapa que indica as coordenadas; não que isso tire a graça, mas com certeza tira a aporrinhação: o enfoque está em proteger seu tanque dos tiros incessantes das linhas inimigas e no poder destrutivo que você pode causar em retaliação! Portanto, a aplicação do conceito foi perfeita: um jogo nada linear e que segue interessante do início ao fim. Inclusive, você pode estabelecer a ordem da “caça” aos pontos vermelhos no mapa sem o menor problema. Depois de destruir todos os alvos “menores” do estágio, aí é que o bicho pega pra capar e aparece o CHEFÃO, o alvo principal da sua missão. Pode ser que ele apareça no exato local em que o último mini-alvo foi destroçado ou num ponto específico da fase, não importa: estes são inimigos hercúleos e cheios de ases na manga. Todos eles possuem um ou no máximo dois pontos fracos que demora-se um pouco até perceber. Não adianta bancar o Rambo sobre 4 rodas!

GRÁFICOS

Como cada fase já é identificável por seu visual inimitável, o jogo sai de cara com muitos pontos na parte gráfica. Os detalhezinhos que fazem a diferença também são notáveis para um game de 1990. Dentre esses aspectos nada compulsórios mas que só agregam ao fator beleza, eu destacaria dois: os pedregulhos rolantes da quarta fase e o dirigível gigante da segunda fase (que na verdade é em cima de onde você está – o tanque está no ar, pilotando em cima de um balão de dimensões colossais, uau, parabéns aos desenvolvedores pela criatividade!). A paleta de cores também faz milagres, considerando-se que é um jogo de primeira geração do Mega Drive – mas repare que as cores parecem muito mais “naturais” nas screens de X68 (abaixo).

O maior atrativo do X68 são as cutscenes no prólogo e entre as fases

SOM

Antes de Motoi Sakuraba conhecer o renome internacional, como o aclamado compositor da OST orquestrada do RPG Lufia, por exemplo, ele já se mostrava aqui, sem dó (gostou dessa? Dó, ré, mi…!) nem piedade… A música é acelerada e intensa; diríamos que se trata de um prog MIDI rock oitentista hipnótico para os adoradores da sonoridade da década! A bateria, o baixo maligno e os sintetizadores vibrantes estão lá, embora um pouco abafados pela pobreza dos processadores de então – basta um pouco de “atenção flutuante” (cuidado com os tiros, não vai morrer!) a fim de notar… O mais engraçado é que tudo aqui é o extremo oposto das composições calmas e melodiosas de Sakuraba em Lufia! Créditos à Sergeant Wolf Band, o assim chamado “time sonoro” dentro do Wolf Team!

A extensão das faixas é algo notório em termos do que se via (e ouvia) no X68000. O Mega Drive infelizmente viu o tamanho das faixas ser reduzido, bem como a qualidade já não é a mesma.

X68

MELHOR VERSÃO

Como eu já havia antecipado em vários pontos, não sendo japonês é praticamente certeiro que você jamais jogou o Granada original, e que ele é muito superior tecnicamente. O game de Genesis pode ser encontrado em bom estado por uns 3 dólares caçando pela web. Não é um jogo raro nem inflacionado pela cobiça dos colecionadores, nada disso – o que torna a versão “primata”, de Sharp X68K, ainda mais especial! Claro, a animação de abertura, as seções cortadas das músicas e os tons e matizes mais refinados da paleta de cores farão falta, mas se o software de Mega Drive for o único ao seu alcance, não se sinta intimidado: ainda é um jogo de tiro do topo da prateleira do console e bom o suficiente para agradar qualquer fã de shooters não muito snob e exigente na parte técnica.

X68

CONCLUSÃO

Além do grande (e bem mais recente) Ikaruga, nunca joguei um game de tiro tão superficial nas aparências e que no entanto superasse todas as expectativas do shooter fanático quanto este despretensioso e insano Granada! A engenhosidade dos chefes é de cair o c…anhão… do laser?! Veja só os exemplos: um dos seus inimigos-mor de fase será invulnerável pela frente, sendo necessário usar a parede como ricocheteadora de tiros, para atingi-lo por trás; outro é uma cobra gigante que persegue o jogador e atira por todas as ventas ou escamas, em todas as direções imagináveis! O último chefe, então, parece ser impossível de tão bom e arrebatador para um jogo de 90… Nada mais natural, na verdade, vindo de um game em que os estágios são tão bem-pensados, daí a necessidade de destacar a inteligência do design em dois parágrafos distintos desta resenha! Prepare-se para ressuscitar o meme do “os carros são as lanchas”, só que desta vez substituindo lanchas por “tanque”… e prepare-se também para vivenciar até terremotos (com tremor de tela e tudo)… Todo tira onda esse Leon! (O quê? Eu não te contei? O nome completo do protagonista é Leon Todo!)

P.S.: Esqueça Final Zone/FZ Senki Axis (para os mesmos periféricos que este Granada): mero clone barato!

As bonus stages também foram removidas da conversão para Mega Drive!

O FUTURO DA WOLF TEAM E O GÊNIO DE TOYOTA

“Vem cá, você não está superestimando a importância de Granada na história do Wolf Team, não?!”

Não, meu caro! Como mero exemplo, uma obra-prima posterior, El Viento, foi marqueteada pela própria publisher como “da mesma desenvolvedora de Granada!” na caixa do produto. Granada foi literalmente uma explosão no subgênero, e uma mudança de curso para a empresa.

A Telenet Japan mal seria lembrada hoje se não fosse esse salto de qualidade que o WT deu justamente com Granada. Nos 3 anos seguintes, esta empresa viveria sua era de ouro, com inúmeros títulos de destaque para computadores caseiros japoneses e consoles ocidentais. Dificuldades econômicas e algumas péssimas decisões de gestão acabaram dissolvendo a companhia e forçando uma emigração de todos os talentos envolvidos neste projeto (nem mesmo o presidente da WT escapou da degola, metaforicamente falando). Toshio Toyota, a grande mente por trás deste sucesso cult, trilhou seu próprio caminho, fundando a GAU Entertainment e sendo o projetista de um dos maiores “B classics” de MD depois do próprio Granada, Ranger X. Enfim, nunca um “tanque de guerra contra o mundo” foi um conceito tão rico e divertido. Dane-se o clichê!

Lista de agradecimentos pela cessão de informações e imagens

GAMEFAQS.COM:

davyx38

TheSAMMIES

HONESTGAMERS.COM:

Zigfried

MOBYGAMES.COM:

Alaka

Lupinzar

Xcarvenger

IGN.COM:

Travis Fahs

SEGADOES.COM:

Dylan Cornelius

versão 2 – 2020; 2025.

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